sábado, 3 de julho de 2010

Nós

Cuidado! Querem fazer-nos acreditar na segurança da não-liberdade. Este é o alerta, o grito em defesa da liberdade que o leitor perceberá em Nós (publicado pela primeira vez no Brasil com o título A muralha verde), o livro de ficção-científica distópica que inspirou alguns escritores como Aldoux Huxley, em Admirável mundo novo (1932), Ayn Rand, em Anthem (1938), e George Orwell, em 1984 (1949).

Obra máxima do engenheiro naval russo Evgueny Zamiatin, Nós é um romance antecipatório. Escrito em 1920-21, o livro provocou uma perseguição encarniçada ao escritor na época em que tentou publicá-lo. Zamiatin foi atacado pela censura do partido comunista que, além de proibir a publicação de Nós, baniu todos os seus trabalhos das livrarias. Ele acabou exilado na França, onde faleceu em 1937, aos 53 anos de idade, sem jamais ter visto o seu livro ser publicado em sua Terra-pátria.

Na Rússia, devido à censura imperante no país, Nós circulou ilegalmente durante anos em forma manuscrita. Sua primeira publicação foi em 1924, na Inglaterra. O livro só adentrou legalmente a pátria-mãe do autor em 1988 com o declínio do regime soviético.

Em Nós, Zamiatin — de forma irônica e surreal, fazendo uso de uma linguagem contida e propositalmente disciplinada — profetiza a desumanização e a automatização dos pensamentos, a banalização e repressão das emoções e o extermínio dos que estão em desacordo com a ordem imposta e lutam para manter vivas imaginação e originalidade.

No universo de Nós, as personagens têm hora marcada para empreenderem esforços de procriação, em contatos extremamente impessoais. Os prédios são totalmente de vidro transparente nos quais os moradores são vigiados a todo momento; com excessão dos encontros íntimos, durante os quais é permitido fechar as cortinas por tempo programado.

A história do livro, narrada pela personagem principal D-503 — as pessoas não recebem nomes, mas números —, consiste em uma revolução sendo armada e deflagrada. O cotidiano de D-503 e de seus amigos I-330, U e O-90, assim como as causas da revolução, emergem na narrativa de forma fluida. A personagem principal descobre-se, a certa altura, doente e sua doença consiste no nascimento de uma alma.

O governo — o Estado Unificado, como o denominam — sob o comando do Benfeitor, regente supremo da nação, descobre uma maneira de curar essa doença, em princípio tida como incurável: a extirpação da imaginação. A mutilação constituindo-se em uma cura para o males da humanidade e da individualidade.

As personagens que à primeira vista são lógicas e impessoais, talvez pela forma como se relacionam, na verdade constituem-se em ricas combinações de sentimentos humanos. D-503 é um engenheiro que não resiste aos seus mais profundos anseios e escreve a estória à qual nos referimos. O-90 é doce e meiga. E a sedutora e subversiva I-330 é o estopim para a detonação da alma de D-503.

O final é pessimista e quase folhetinesco, mas clássico. Só posso dizer isso! Não posso contar mais, senão perde a graça. Rsrsrs ;)

A história de Nós é baseada nas experiências do autor com as revoluções russas de 1905 e 1917 e no período em que trabalhou, em 1916, supervisionando a construção de navios na Inglaterra. O livro é uma sátira futurista distópica, geralmente considerada o berço do subgênero. Mas há outros como A nova utopia (1891), de Jerome K. Jerome, e O tacão de ferro (1900), de Jack London.

É importante salientar que o referido Jerome K. Jerome tenha, muito provavelmente, exercido alguma influência no romance de Zamiatin. Em 1891, Jerome havia publicado o conto/ensaio A nova utopia que descrevia uma cidade — quiçá um mundo — abarcada por um pesadelo igualitarista onde os habitantes eram quase indistintos em seus uniformes cinza (similar as unifas, de Nós) e todos tinham cabelos pretos e curtos, naturais ou tingidos. Ninguém recebia nomes, apenas números costurados nas túnicas: pares para as mulheres, ímpares para os homens — o mesmo esquema da obra russa. A igualdade era levada tão ao extremo que pessoas com o físico bem-desenvolvido sofriam cirurgias para redução de membros — em Zamiatin, a cirurgia de nivelamento de nariz é sugerida.

Na obra de Jerome, aqueles com uma imaginação superativa eram submetidos a uma cirurgia que a reduzia — uma operação semelhante tem importância central em Nós. Ainda mais significativa é a apreciação, da parte de ambos os autores, pelo amor familiar e, por extensão, do individual como uma força disruptiva e humanizante.

É provável que o autor russo o tenha lido. A obra de Jerome teve três edições publicadas na Rússia antes de 1917, sendo estas muito conhecidas pela maioria das pessoas instruídas da época.

Quanto as influências de Zamiatin no trabalho mais conhecido do subgênero, 1984, de George Orwell — que começou a escrevê-lo alguns meses após ter lido uma tradução francesa de Nós e ter escrito uma resenha sobre a obra —, há registros de Orwell ter dito que iria tomá-la como modelo para o seu próximo romance. Eu não duvido disso! Pois, salta aos olhos que a estrutura narrativa dos dois livros é muito semelhante, o que dá realmente margem às acusações de plágio. A inspiração de Orwell é, no mínimo, inegável. Pois ambos tratam ,em suas narrativas, de uma incursão pela mente de um cidadão de um futuro distópico, habitante de uma sociedade controlada por um regime totalitário que começa a questionar sua realidade a partir da paixão por uma bela e jovem subversiva.

Em ambos os livros, o texto é assombrado pela presença opressiva de um líder onisciente e paternalista: o Benfeitor, em Nós, e o Grande Irmão, em 1984. O grande mérito de Zamiatin foi o fato (pois é fato) dele ter sido um visionário já que escreveu seu grandioso livro enquanto os regimes totalitários que tomaram conta da Europa e de boa parte do mundo nos anos 30 ainda se encontravam em fase embrionária, latente. Ele parece ter captado o perigo por trás da ideia de que o Todo deveria se sobrepor às partes, ou seja, o bem comum esmagando a liberdade individual.

Já quanto a influência de Nós sobre o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, o próprio Huxley explicou em uma carta, escrita por ele em 1962, que sua obra fora escrita muito antes dele ter ouvido falar da obra russa. Uhm... Desconfio. ¬¬

Seja como for, não creio que estes fatos tirem de Orwell e Huxley o brilhantismo e, sobretudo, a importância de suas obras. Contudo, é importante que a obra de Zamiatin seja melhor difundida, para que a justiça histórica seja feita. ;)

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Link direto: http://www.alfaomega.com.br/modules.php?name=Content&pa=showpage&pid=221

BIBLIOGRAFIA:
Nós (Mi), de Evgueny Zamiatin. São Paulo: alfa-omega, 2004, 212p.
Admirável mundo novo (Brave new world), de Aldous Huxley. São Paulo: Globo, 2005, 318p.
1984 (Nineteen Eighty-Four), de George Orwell. São Paulo: Cia Editora Nacional, 2004, 301p.

2 comentários:

  1. *_* que massa, quero ler tudinhuu! \o/

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  2. Tive a chance de ler esse excelente livro. Só não concordo com essa mensagem de igualdade utópica. Enfim,bela matéria.

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