quinta-feira, 1 de julho de 2010

O fim da infância


Escrito entre fevereiro e dezembro de 1952 e publicado no ano seguinte, O Fim da Infância é um dos livros mais influentes da ficção científica do século XX. A obra trata de um tema comum no gênero — invasões alienígenas —, porém, a partir de uma perspectiva incomum.

A história começa com a chegada inesperada de gigantescas naves alienígenas que se posicionam sobre os céus das principais cidades da Terra. Os cinéfilos de plantão logo farão a vinculação imagética do início do livro a filmes como O dia em que a Terra parou (1951/2008), Independence Day (1996) e, mais recentemente, Distrito 9 (2009) e a série televisiva V: visitors (2009). Com excessão de V: visitors, que mais parece ser uma espécie de homenagem (ou seria plágio?) à história do livro, nos filmes a semelhança se limita a imagem das naves pairando nos céus das metrópoles.

Diferentemente de A guerra dos mundos (1898), de H. G. Wells, e da maioria das histórias de invasão alienígena, os recém-chegados de O fim da infância desejam salvar o Universo ao invés de simplesmente destruí-lo ou dominá-lo. Aparentemente benignos, os invasores logo implementam uma espécie de ditadura bem-intencionada e esclarecida. Obrigam todas as nações a cessarem suas guerras e disputas nacionalistas, pondo, assim, um fim a corrida espacial e a iminente hecatombe nuclear que aniquilaria a vida no planeta.

Em pouco tempo é estabelecido um governo mundial que se reporta aos alienígenas. Toda a administração econômica e social é supervisionada por eles, sendo proibido aos terráqueos deixarem o planeta e agirem em qualquer ramo do conhecimento — ciência, religião e artes — sem sua aprovação.


Como logo se fica sabendo, a dominação, apesar de realmente existir, é positiva e, uma vez que os invasores demonstram grande poder de tomada de decisões e sucesso, conduzindo toda a humanidade e todos os seres vivos do planeta a um grau inédito de paz e prosperidade até então nunca vistas, os humanos lhes conferem o título de Senhores Supremos.

Os benignos Senhores Supremos, no entanto, não explicitam as razões de sua visita e de seu domínio incontestável, ocultando da humanidade os reais propósitos da sua missão. Isso faz com que questões cruciais se apresentam para o desenrolar da vida na Terra: a) Quem são e de onde vêm os Senhores Supremos? b) Qual o real propósito da ajuda desses seres extraterrestres? c) Por que eles se recusam a mostrar-se à humanidade?

Clarke narra a história com maestria, levando o leitor a tentar solucionar esses mistérios, o que transforma a obra em uma das mais elaboradas do gênero já que foge do clichê "Bem versus Mal" do maniqueísmo (doutrina segundo a qual o Universo foi criado e é dominado por dois princípios antagônicos e irredutíveis: Deus, o bem supremo, e o Diabo, o mal absoluto). Pode-se dizer até que o romance estabeleceu um marco de qualidade superior para o tema que tinha, como principal referência, o bélico e politicamente crítico A guerra dos mundos, de H.G. Wells.

A partir de O fim da infância, tornou-se possível à literatura ficcional científica tratar das interações entre espécies e civilizações diferentes de forma a alcançar novos parâmetros de interpretação, inaugurando uma temática que seria recorrente — no livro/filme 2001: uma odisseia no espaço (1964/1968) — na carreira de Clarke: a vida humana justificada por sua evolução final e transcendência cósmica.


Publicado em 1953 com o curioso alerta "As opiniões aqui expressas não refletem a opinião do autor", o livro fala da última geração de homens a habitar a Terra, daí o título, que sugere que a humanidade entrará, com a chegada dos Senhores Supremos, em uma era de maturidade.

Quando lê o livro pela primeira vez, o leitor provavelmente sentirá um grande impacto existencial: nada faz sentido! nem a busca pela felicidade e a luta por ideais, nem a crença em Deus e a esperança num porvir. Ao ler o livro pela segunda vez, novamente terá a sensação de estranhamento em relação as implicações existenciais. Mas desta vez, compreenderá o que Clarke quer defender: a humanidade só encontrará o seu sentido quando for capaz de interagir com as forças desconhecidas do Cosmos.

Mas, afinal de contas, qual é mesmo o propósito final dos alienígenas? A resposta é chocante. Passados 50 anos desde sua chegada, os Senhores Supremos decidem mostram-se pela primeira vez. Quando o fazem, várias pessoas chegam a desmaiar. Seriam eles o cumprimento às avessas de uma profecia? Uma possível interpretação místico-religiosa para o livro é inevitável, mas não é a única, embora possivelmente a mais perturbadora.

Em todo caso, se o título do romance nos remete ao encontro da humanidade com o fim de seus sonhos e ilusões, a obra nos mostra também a maturidade precoce do autor que é herdeiro direto de Olaf Stapledon e Theodore Sturgeon, autores de uma metafísica e de uma tradição na literatura filosófica e de ficção científica que liga a humanidade a um esquema cósmico: a passagem do estágio homem para um ser além do imaginável.

O fim da infância é um livro que não pode faltar na sua estante. Eu já garanti o meu! o/

Onde comprar: http://www.editoraaleph.com.br/site/
Link direto: http://www.editoraaleph.com.br/site/ficcao/o-fim-da-infancia.html

BIBLIOGRAFIA:
O Fim da Infância (Childhood's End), de Arthur C. Clarke. São Paulo: Aleph, 2010, 319p.
2001: uma odisséia no espaço (2001 - A space odyssey), de Arthur C. Clarke. Rio de Janeiro: Edibolso, 1975, 227p.
A guerra dos mundos (The war of the worlds), de H. G. Wells. Rio de janeiro: Objetiva, 2007, 236p.

5 comentários:

  1. O blog tah lindo demais... sempre achei que vc devia ter um. Sua escrita está irretocável. Tô cheia de vontade de ler esse livro, faz tempo que não me dedico ao universo das sci-fi. bjo.

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  2. Concordo Elisangela. Ôh menino dedicado. O melhor é que o objetivo foi alcançado: fazer a gente ter vontade de ler os livros! blog fofuxo d+! =D

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  3. Huahuahuahauahuauh,fofuxo demais?? Fala assim não, hehehe...rapaz, realmente dá vontade de ler os livros aqui resenhados,incrível!! Se eu fosse vc buscaria uma parceria com o Submarino, rsrsrs...parabéns pelo blog e grande abraço!

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  4. Nivanio,

    Boa review, mas discordo em alguns pontos... hehe.

    Não acho que os Overlords (Senhores Supremos) estabeleceram uma "ditadura", como disse. Eles apenas influenciaram nas relações internacionais do mundo, de forma a condenar algumas poucas práticas e contribuir para a evolução da sociedade com tecnologia e diplomacia.

    Outra coisa: "o livro fala da última geração de homens a habitar a Terra". Cara... isso foi sacanagem com o pessoal que ainda não leu! É um segredo do livro (spoil) muito importante.

    Do mais, ótimo review. É muito bom saber que existem blogs em pt-BR com tal qualidade.

    Sucesso.

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  5. Grande livro, vendo este post aqui deu vontade de ler novamente.

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