Não verás país nenhum (1981), escrito pelo jornalista e compositor literário Ignácio de Loyola Brandão (*31/07/1936), é um alerta bastante sério do que nos espera no futuro.O romance, considerado o mais pessimista e devastador da literatura brasileira, conta, em seu enredo apocalíptico, a história terrível de um mundo a frente do atual, num futuro indeterminado no qual a humanidade vive com a herança do desastre ambiental deixado pela sociedade moderna. A Amazônia foi transformada em um deserto sem árvores, a poluição dos aquíferos tornou a água imprópria para o consumo, o lixo se acumula nas cidades em imensas colinas habitadas pela parcela miserável da população e, no interior, bolsões de ar quente fulminante matam pessoas e animais.
Na ficção, a educação ambiental poderia ter salvo o país desse grande desastre ecológico — isto, é claro, se houvesse interesse da classe política. Mas, ironica e semelhantemente à "vida real", a administração do Brasil de Não verás país nenhum está nas mãos de governantes medíocres, interessados apenas em vantagens pessoais.
Em linhas gerais, o livro é um espantoso prognóstico de um futuro desastroso, no qual a falta de políticas de preservação ambiental e o desenfreado desenvolvimento tecnológico-industrial acabam tornando martirizantes as condições de vida no planeta.
Loyola localiza o enredo na Grande São Paulo que, no futuro, torna-se uma cidade ainda mais subdividida em castas. Segundo ordens do Esquema — sistema governamental em vigor —, cada cidadão deve circular apenas em determinadas áreas da metrópole superpovoada já que não há lugar para todos. Mas tudo não passa de um plano macabro de segregação. Ao governo incompetente, resta o que, para ele, é a solução mais prática e imediata ao problema do superpovoamento: abandonar a população a esmo, condenando-a à fome e à morte numa espécie de seleção natural diabólica. O pano de fundo do enredo não é muito diferente do expediente comum do subgênero Distopia, de modo que o leitor não tardará em identificar uma atmosfera similar aos clássicos Nós (1921), de Zamiatin, Admirável mundo novo (1932), de Aldous huxley, e 1984 (1949), de George Orwell. Porém, diferentemente destes, o Esquema de Loyola não consegue domar completamente o individualismo nem tampouco manter a ordem. Não apenas a subversão é inevitável, como nasce do grande número de excluídos do Esquema. No entanto, a incompetência do Esquema em estabelecer a ordem não impede que os castigos conferidos aos seus cidadãos sejam menos cruéis do que as torturas a que Winston Smith é submetido em 1984.
É neste contexto que Souza, o protagonista da trama, cidadão pacato, casado, ex-professor de história e agora burocrata, gradativamente se desvia de sua rotina e torna-se um subversivo. Ele carrega o enredo contando, por meio de relatos cotidianos, as dificuldades e as situações que enfrenta no seu convívio social.
Situações como, por exemplo, no bar de baixa circulação que Souza costuma frequentar já que a vida social lhe é sufocante. Lá, ao pedir um copo de água gelada para aplacar o calor insuportável, ouve do dono do bar que água é um artigo de luxo difícil de ser encontrado. Diante do absurdo, resta a Souza se conformar e matar a sede (que não é pouca) com um certo líquido, substituto da água, produzido industrialmente para fins de consumo: urina reciclada.Fora do bar, Souza enfrenta diversos outros problemas como a necessidade de autorizações especiais para circular (a pé ou de lotação) já que sua credencial de funcionário público não lhe permite deslocar-se por toda a cidade.
Sua crescente insatisfação com o sistema é representada por um furo que aparece misteriosamente em sua mão e que aumenta de tamanho de forma proporcional ao desenvolvimento de sua autoconsciência. Souza, a medida que se rebela contra o sistema, perde sua confortável condição de burguês, a esposa o abandona e uma sucessão de eventos o torna um excluído; primeiramente do seio familiar e, em seguida, do seio da sociedade.
Negado-lhe o direito de ir e vir, impossibilitado de exercer sua individualidade e de se expressar livremente — o próprio personagem explica: "o fiscal pode ser o homem à sua frente, ao lado. Em qualquer parte" (p.41) —, Souza passa a sofrer uma crise existencial. Para ele, o tempo parece não mais existir e resta-lhe refletir sobre sua condição; única saída do absurdo que sua vida se tornou. Mas, resistir é inútil! Toda e qualquer tentativa, desde sua concepção em pensamento, é um combate já perdido. Primeiramente porque a arma mestra do Esquema é a alienação. Ou seja, a verdade é esta em que se vive, sem possibilidades de questionamento: "Convivi com a distorção, aceitei-a como realidade. Também já perdemos o conceito de real." (p. 217)
Segundo porque o Esquema prega a idéia de imutabilidade da história por meio da desmemorização coletiva, de modo que o cidadão não tem mais referenciais de comparação: "Julgamento da história? Aqueles homens pretenderam eliminar a história, tentando apagar o futuro." (p. 104)
E o que o futuro reserva para Souza? absolutamente nada! Abandonado por sua própria classe, resta-lhe a convivência com os demais excluídos cuja humanidade não é mais do que uma lembrança distante em seus corpos disformes, assim como o furo em sua própria mão.
No entanto, ainda há esperança. A mudança é sugerida no enredo como uma flor que brota milagrosamente no calor causticante do deserto. Em outras palavras, a esperança reside na patética resistência de jovens como o sobrinho de Souza, aparentemente combativo ao sistema mas tão dogmático quanto aqueles que diz combater, e na estranha e jovem universitária Elisa, a qual torna-se amante de Souza e lhe combate a destrado, apesar dela mesma ser incapaz de ter plena consciência de sua própria situação.
O romance é um verdadeiro sucesso editorial. O livro — que já atingiu a vigésima terceira edição desde sua publicação no Brasil, em 1981 — é a concretização do sonho de Loyola que, desde pequeno, sonhava conquistar o mundo com sua literatura.Não verás país nenhum foi publicado em vários países e traduzido para diversos idiomas, tendo, inclusive, recebido o Prêmio Illa de Melhor Livro Latino-americano publicado na Itália em 1983.
O sucesso da reedição de Não verás país nenhum deve-se, em grande parte, à atualidade de alguns de seus temas. Conforme Fausto Cunha, "o escritor de FC inteligente sabe de duas coisas: escreve para o leitor de seu tempo, que possui problemática própria; e escreve sabendo que seu futuro e seus mundos imaginários são meras extrapolações acessíveis ao homem de hoje" (in "Ascensão e queda da ficção científica", Revista Civilização Brasileira n. 13, maio de 1967). Neste sentido, Não verás país nenhum não foge à regra.
Embora suas previsões não sejam completamente realistas, sendo por vezes ingênuas e fantasiosas, elas conseguem, por meio da extrapolação, expor claremente a idéia de catástrofe iminente e conferir um estatuto de tensão inevitável; características muito apreciadas em obras do gênero.
Outras obras brasileiras, contemporâneas de Não verás país nenhum, também apresentam tal estrutura (a descrição de um regime totalitário e a luta de um homem por sua liberdade e humanidade) e, inevitalmente, ganham uma leitura alegórica quando observada em seu contexto. Zero (1975), também de Loyola Brandão, O fruto do vosso ventre (1976), de Herberto Sales, Os pecados da tribo (1976) e Aquele mundo de Vasabarros (1982), de José J. Veiga, entre outros, são romances interpretados como alegorias do regime militar da época de suas publicações.
A título de curiosidade... o título da obra é uma sátira cruel à poesia A Pátria, de Olavo Bilac, que, durante décadas, foi recitado e decorado nas escolas pelas crianças brasileiras: "Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste! Criança! Não verás nenhum país como este!". A adoção do verso bilaqueano com seu significado virado ao avesso é uma mostra do ponto de vista crítico e carregado de ironia, de Loyola, em oposição ao róseo otimismo, do poeta.
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Link direto: http://www.globaleditora.com.br/Loader.aspx?ucontrol=bWVudUhvbWUsZmljaGFMaXZybw==&livroID=3619
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BIBLIOGRAFIA:
Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão. São Paulo: Global Editora, 2007, 414p.
Nós (Mi), de Evgueny Zamiatin. São Paulo: alfa-omega, 2004, 212p.
Admirável mundo novo (Brave new world), de Aldous Huxley. São Paulo: Globo, 2005, 318p.
1984 (Nineteen Eighty-Four), de George Orwell. São Paulo: Cia Editora Nacional, 2004, 301p.
Zero (1975), de Ignácio de Loyola Brandão. São Paulo: Global Editora, 312p.
O fruto do vosso ventre (1976), de Herberto Sales.
Os pecados da tribo (1976), de José J. Veiga. São Paulo: Bertrand Brasil, 2005, 142p.
Aquele mundo de Vasabarros (1982), de José J. Veiga. São Paulo: Bertrand Brasil, 1997, 208p.
Nunca me interressei por literatura brasileira. agora tô com vontade de ler esse, muito massa! heeey, meu niversaru dia 31 aê. iiwww, obrigaduuu!
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