domingo, 8 de agosto de 2010

Não verás país nenhum

Não verás país nenhum (1981), escrito pelo jornalista e compositor literário Ignácio de Loyola Brandão (*31/07/1936), é um alerta bastante sério do que nos espera no futuro.

O romance, considerado o mais pessimista e devastador da literatura brasileira, conta, em seu enredo apocalíptico, a história terrível de um mundo a frente do atual, num futuro indeterminado no qual a humanidade vive com a herança do desastre ambiental deixado pela sociedade moderna. A Amazônia foi transformada em um deserto sem árvores, a poluição dos aquíferos tornou a água imprópria para o consumo, o lixo se acumula nas cidades em imensas colinas habitadas pela parcela miserável da população e, no interior, bolsões de ar quente fulminante matam pessoas e animais.

Na ficção, a educação ambiental poderia ter salvo o país desse grande desastre ecológico — isto, é claro, se houvesse interesse da classe política. Mas, ironica e semelhantemente à "vida real", a administração do Brasil de Não verás país nenhum está nas mãos de governantes medíocres, interessados apenas em vantagens pessoais.

Em linhas gerais, o livro é um espantoso prognóstico de um futuro desastroso, no qual a falta de políticas de preservação ambiental e o desenfreado desenvolvimento tecnológico-industrial acabam tornando martirizantes as condições de vida no planeta.

Loyola localiza o enredo na Grande São Paulo que, no futuro, torna-se uma cidade ainda mais subdividida em castas. Segundo ordens do Esquema — sistema governamental em vigor —, cada cidadão deve circular apenas em determinadas áreas da metrópole superpovoada já que não há lugar para todos. Mas tudo não passa de um plano macabro de segregação. Ao governo incompetente, resta o que, para ele, é a solução mais prática e imediata ao problema do superpovoamento: abandonar a população a esmo, condenando-a à fome e à morte numa espécie de seleção natural diabólica.

O pano de fundo do enredo não é muito diferente do expediente comum do subgênero Distopia, de modo que o leitor não tardará em identificar uma atmosfera similar aos clássicos Nós (1921), de Zamiatin, Admirável mundo novo (1932), de Aldous huxley, e 1984 (1949), de George Orwell. Porém, diferentemente destes, o Esquema de Loyola não consegue domar completamente o individualismo nem tampouco manter a ordem. Não apenas a subversão é inevitável, como nasce do grande número de excluídos do Esquema. No entanto, a incompetência do Esquema em estabelecer a ordem não impede que os castigos conferidos aos seus cidadãos sejam menos cruéis do que as torturas a que Winston Smith é submetido em 1984.

É nest
e contexto que Souza, o protagonista da trama, cidadão pacato, casado, ex-professor de história e agora burocrata, gradativamente se desvia de sua rotina e torna-se um subversivo. Ele carrega o enredo contando, por meio de relatos cotidianos, as dificuldades e as situações que enfrenta no seu convívio social.

Situações como, por exemplo, no bar de baixa circulação que Souza costuma frequentar já que a vida social lhe é sufocante. Lá, ao pedir um copo de água gelada para aplacar o calor insuportável, ouve do dono do bar que água é um artigo de luxo difícil de ser encontrado. Diante do absurdo, resta a Souza se conformar e matar a sede (que não é pouca) com um certo líquido, substituto da água, produzido industrialmente para fins de consumo: urina reciclada.

Fora do bar, Souza enfrenta diversos outros problemas como a necessidade de autorizações especiais para circular (a pé ou de lotação) já que sua credencial de funcionário público não lhe permite deslocar-se por toda a cidade.

Sua crescente insatisfação com o sistema é representada por um furo que aparece misteriosamente em sua mão e que aumenta de tamanho de forma proporcional ao desenvolvimento de sua autoconsciência. Souza, a medida que se rebela contra o sistema, perde sua confortável condição de burguês, a esposa o abandona e uma sucessão de eventos o torna um excluído; primeiramente do seio familiar e, em seguida, do seio da sociedade.

Negado-lhe o direito de ir e vir, impossibilitado de exercer sua individualidade e de se expressar livremente — o próprio personagem explica: "o fiscal pode ser o homem à sua frente, ao lado. Em qualquer parte" (p.41) —, Souza passa a sofrer uma crise existencial. Para ele, o tempo parece não mais existir e resta-lhe refletir sobre sua condição; única saída do absurdo que sua vida se tornou.

Mas, resistir é inútil! Toda e qualquer tentativa, desde sua concepção em pensamento, é um combate já perdido.
Primeiramente porque a arma mestra do Esquema é a alienação. Ou seja, a verdade é esta em que se vive, sem possibilidades de questionamento: "Convivi com a distorção, aceitei-a como realidade. Também já perdemos o conceito de real." (p. 217)

Segundo porque o Esquema prega a idéia de imutabilidade da história por meio da desmemorização coletiva, de modo
que o cidadão não tem mais referenciais de comparação: "Julgamento da história? Aqueles homens pretenderam eliminar a história, tentando apagar o futuro." (p. 104)

E o que o futuro reserva para Souza? absolutamente nada! Abandonado por sua própria classe, resta-lhe a convivência com os demais excluídos cuja humanidade não é mais do que uma lembrança distante em seus corpos disformes, assim como o furo em sua própria mão.

No entanto, ainda há esperança. A mudança é sugerida no enredo como uma flor que brota milagrosamente no
calor causticante do deserto. Em outras palavras, a esperança reside na patética resistência de jovens como o sobrinho de Souza, aparentemente combativo ao sistema mas tão dogmático quanto aqueles que diz combater, e na estranha e jovem universitária Elisa, a qual torna-se amante de Souza e lhe combate a destrado, apesar dela mesma ser incapaz de ter plena consciência de sua própria situação.

O romance é um verdadeiro sucesso editorial. O livro — que já atingiu a vigésima terceira edição desde sua publicação no Brasil, em 1981 — é a concretização do sonho de Loyola que, desde pequeno, sonhava conquistar o mundo com sua literatura.

Não verás país nenhum foi publicado em vários países e traduzido para diversos idiomas, tendo, inclusive, recebido o Prêmio Illa de Melhor Livro Latino-americano publicado na Itália em 1983.

O sucesso da reedição de Não verás país nenhum deve-se, em grande parte, à atualidade de alguns de seus temas. Conforme Fausto Cunha, "o escritor de FC inteligente sabe de duas coisas: escreve para o leitor de seu tempo, que possui problemática própria; e escreve sabendo que seu futuro e seus mundos imaginários são meras extrapolações acessíveis ao homem de hoje" (in "Ascensão e queda da ficção científica", Revista Civilização Brasileira n. 13, maio de 1967). Neste sentido, Não verás país nenhum não foge à regra.

Embora suas previsões não sejam
completamente realistas, sendo por vezes ingênuas e fantasiosas, elas conseguem, por meio da extrapolação, expor claremente a idéia de catástrofe iminente e conferir um estatuto de tensão inevitável; características muito apreciadas em obras do gênero.

Outras obras brasileiras, contemporâneas de Não verás país nenhum, também apresentam tal estrutura (a descrição de
um regime totalitário e a luta de um homem por sua liberdade e humanidade) e, inevitalmente, ganham uma leitura alegórica quando observada em seu contexto. Zero (1975), também de Loyola Brandão, O fruto do vosso ventre (1976), de Herberto Sales, Os pecados da tribo (1976) e Aquele mundo de Vasabarros (1982), de José J. Veiga, entre outros, são romances interpretados como alegorias do regime militar da época de suas publicações.

A título de curiosidade... o título da obra é uma sátira cruel à poesia A Pátria, de Olavo Bilac, que, durante décadas, foi recitado e
decorado nas escolas pelas crianças brasileiras: "Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste! Criança! Não verás nenhum país como este!". A adoção do verso bilaqueano com seu significado virado ao avesso é uma mostra do ponto de vista crítico e carregado de ironia, de Loyola, em oposição ao róseo otimismo, do poeta.


BIBLIOGRAFIA:
Não verás país n
enhum, de Ignácio de Loyola Brandão. São Paulo: Global Editora, 2007, 414p.

Nós (Mi), de Evgueny Zamiatin. São Paulo: alfa-omega, 2004, 212p.
Admirável mundo novo (Brave new world), de Aldous Huxley. São Paulo: Globo, 2005, 318p.
1984 (Nineteen Eighty-Four), de George Orwell. São Paulo: Cia Editora Nacional, 2004, 301p.

Zero (1975), de Ignácio de Loyola Brandão. São Paulo: Global Editora, 312p.
O fruto do vosso ventre (1976),
de Herberto Sales.
Os pecados da tribo (1976), de José J. Veiga. São Paulo: Bertrand Brasil, 2005, 142p.
Aquele mundo de Vasabarros (1982), de José J. Veiga.
São Paulo: Bertrand Brasil, 1997, 208p.

sábado, 3 de julho de 2010

Nós

Cuidado! Querem fazer-nos acreditar na segurança da não-liberdade. Este é o alerta, o grito em defesa da liberdade que o leitor perceberá em Nós (publicado pela primeira vez no Brasil com o título A muralha verde), o livro de ficção-científica distópica que inspirou alguns escritores como Aldoux Huxley, em Admirável mundo novo (1932), Ayn Rand, em Anthem (1938), e George Orwell, em 1984 (1949).

Obra máxima do engenheiro naval russo Evgueny Zamiatin, Nós é um romance antecipatório. Escrito em 1920-21, o livro provocou uma perseguição encarniçada ao escritor na época em que tentou publicá-lo. Zamiatin foi atacado pela censura do partido comunista que, além de proibir a publicação de Nós, baniu todos os seus trabalhos das livrarias. Ele acabou exilado na França, onde faleceu em 1937, aos 53 anos de idade, sem jamais ter visto o seu livro ser publicado em sua Terra-pátria.

Na Rússia, devido à censura imperante no país, Nós circulou ilegalmente durante anos em forma manuscrita. Sua primeira publicação foi em 1924, na Inglaterra. O livro só adentrou legalmente a pátria-mãe do autor em 1988 com o declínio do regime soviético.

Em Nós, Zamiatin — de forma irônica e surreal, fazendo uso de uma linguagem contida e propositalmente disciplinada — profetiza a desumanização e a automatização dos pensamentos, a banalização e repressão das emoções e o extermínio dos que estão em desacordo com a ordem imposta e lutam para manter vivas imaginação e originalidade.

No universo de Nós, as personagens têm hora marcada para empreenderem esforços de procriação, em contatos extremamente impessoais. Os prédios são totalmente de vidro transparente nos quais os moradores são vigiados a todo momento; com excessão dos encontros íntimos, durante os quais é permitido fechar as cortinas por tempo programado.

A história do livro, narrada pela personagem principal D-503 — as pessoas não recebem nomes, mas números —, consiste em uma revolução sendo armada e deflagrada. O cotidiano de D-503 e de seus amigos I-330, U e O-90, assim como as causas da revolução, emergem na narrativa de forma fluida. A personagem principal descobre-se, a certa altura, doente e sua doença consiste no nascimento de uma alma.

O governo — o Estado Unificado, como o denominam — sob o comando do Benfeitor, regente supremo da nação, descobre uma maneira de curar essa doença, em princípio tida como incurável: a extirpação da imaginação. A mutilação constituindo-se em uma cura para o males da humanidade e da individualidade.

As personagens que à primeira vista são lógicas e impessoais, talvez pela forma como se relacionam, na verdade constituem-se em ricas combinações de sentimentos humanos. D-503 é um engenheiro que não resiste aos seus mais profundos anseios e escreve a estória à qual nos referimos. O-90 é doce e meiga. E a sedutora e subversiva I-330 é o estopim para a detonação da alma de D-503.

O final é pessimista e quase folhetinesco, mas clássico. Só posso dizer isso! Não posso contar mais, senão perde a graça. Rsrsrs ;)

A história de Nós é baseada nas experiências do autor com as revoluções russas de 1905 e 1917 e no período em que trabalhou, em 1916, supervisionando a construção de navios na Inglaterra. O livro é uma sátira futurista distópica, geralmente considerada o berço do subgênero. Mas há outros como A nova utopia (1891), de Jerome K. Jerome, e O tacão de ferro (1900), de Jack London.

É importante salientar que o referido Jerome K. Jerome tenha, muito provavelmente, exercido alguma influência no romance de Zamiatin. Em 1891, Jerome havia publicado o conto/ensaio A nova utopia que descrevia uma cidade — quiçá um mundo — abarcada por um pesadelo igualitarista onde os habitantes eram quase indistintos em seus uniformes cinza (similar as unifas, de Nós) e todos tinham cabelos pretos e curtos, naturais ou tingidos. Ninguém recebia nomes, apenas números costurados nas túnicas: pares para as mulheres, ímpares para os homens — o mesmo esquema da obra russa. A igualdade era levada tão ao extremo que pessoas com o físico bem-desenvolvido sofriam cirurgias para redução de membros — em Zamiatin, a cirurgia de nivelamento de nariz é sugerida.

Na obra de Jerome, aqueles com uma imaginação superativa eram submetidos a uma cirurgia que a reduzia — uma operação semelhante tem importância central em Nós. Ainda mais significativa é a apreciação, da parte de ambos os autores, pelo amor familiar e, por extensão, do individual como uma força disruptiva e humanizante.

É provável que o autor russo o tenha lido. A obra de Jerome teve três edições publicadas na Rússia antes de 1917, sendo estas muito conhecidas pela maioria das pessoas instruídas da época.

Quanto as influências de Zamiatin no trabalho mais conhecido do subgênero, 1984, de George Orwell — que começou a escrevê-lo alguns meses após ter lido uma tradução francesa de Nós e ter escrito uma resenha sobre a obra —, há registros de Orwell ter dito que iria tomá-la como modelo para o seu próximo romance. Eu não duvido disso! Pois, salta aos olhos que a estrutura narrativa dos dois livros é muito semelhante, o que dá realmente margem às acusações de plágio. A inspiração de Orwell é, no mínimo, inegável. Pois ambos tratam ,em suas narrativas, de uma incursão pela mente de um cidadão de um futuro distópico, habitante de uma sociedade controlada por um regime totalitário que começa a questionar sua realidade a partir da paixão por uma bela e jovem subversiva.

Em ambos os livros, o texto é assombrado pela presença opressiva de um líder onisciente e paternalista: o Benfeitor, em Nós, e o Grande Irmão, em 1984. O grande mérito de Zamiatin foi o fato (pois é fato) dele ter sido um visionário já que escreveu seu grandioso livro enquanto os regimes totalitários que tomaram conta da Europa e de boa parte do mundo nos anos 30 ainda se encontravam em fase embrionária, latente. Ele parece ter captado o perigo por trás da ideia de que o Todo deveria se sobrepor às partes, ou seja, o bem comum esmagando a liberdade individual.

Já quanto a influência de Nós sobre o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, o próprio Huxley explicou em uma carta, escrita por ele em 1962, que sua obra fora escrita muito antes dele ter ouvido falar da obra russa. Uhm... Desconfio. ¬¬

Seja como for, não creio que estes fatos tirem de Orwell e Huxley o brilhantismo e, sobretudo, a importância de suas obras. Contudo, é importante que a obra de Zamiatin seja melhor difundida, para que a justiça histórica seja feita. ;)

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Link direto: http://www.alfaomega.com.br/modules.php?name=Content&pa=showpage&pid=221

BIBLIOGRAFIA:
Nós (Mi), de Evgueny Zamiatin. São Paulo: alfa-omega, 2004, 212p.
Admirável mundo novo (Brave new world), de Aldous Huxley. São Paulo: Globo, 2005, 318p.
1984 (Nineteen Eighty-Four), de George Orwell. São Paulo: Cia Editora Nacional, 2004, 301p.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O fim da infância


Escrito entre fevereiro e dezembro de 1952 e publicado no ano seguinte, O Fim da Infância é um dos livros mais influentes da ficção científica do século XX. A obra trata de um tema comum no gênero — invasões alienígenas —, porém, a partir de uma perspectiva incomum.

A história começa com a chegada inesperada de gigantescas naves alienígenas que se posicionam sobre os céus das principais cidades da Terra. Os cinéfilos de plantão logo farão a vinculação imagética do início do livro a filmes como O dia em que a Terra parou (1951/2008), Independence Day (1996) e, mais recentemente, Distrito 9 (2009) e a série televisiva V: visitors (2009). Com excessão de V: visitors, que mais parece ser uma espécie de homenagem (ou seria plágio?) à história do livro, nos filmes a semelhança se limita a imagem das naves pairando nos céus das metrópoles.

Diferentemente de A guerra dos mundos (1898), de H. G. Wells, e da maioria das histórias de invasão alienígena, os recém-chegados de O fim da infância desejam salvar o Universo ao invés de simplesmente destruí-lo ou dominá-lo. Aparentemente benignos, os invasores logo implementam uma espécie de ditadura bem-intencionada e esclarecida. Obrigam todas as nações a cessarem suas guerras e disputas nacionalistas, pondo, assim, um fim a corrida espacial e a iminente hecatombe nuclear que aniquilaria a vida no planeta.

Em pouco tempo é estabelecido um governo mundial que se reporta aos alienígenas. Toda a administração econômica e social é supervisionada por eles, sendo proibido aos terráqueos deixarem o planeta e agirem em qualquer ramo do conhecimento — ciência, religião e artes — sem sua aprovação.


Como logo se fica sabendo, a dominação, apesar de realmente existir, é positiva e, uma vez que os invasores demonstram grande poder de tomada de decisões e sucesso, conduzindo toda a humanidade e todos os seres vivos do planeta a um grau inédito de paz e prosperidade até então nunca vistas, os humanos lhes conferem o título de Senhores Supremos.

Os benignos Senhores Supremos, no entanto, não explicitam as razões de sua visita e de seu domínio incontestável, ocultando da humanidade os reais propósitos da sua missão. Isso faz com que questões cruciais se apresentam para o desenrolar da vida na Terra: a) Quem são e de onde vêm os Senhores Supremos? b) Qual o real propósito da ajuda desses seres extraterrestres? c) Por que eles se recusam a mostrar-se à humanidade?

Clarke narra a história com maestria, levando o leitor a tentar solucionar esses mistérios, o que transforma a obra em uma das mais elaboradas do gênero já que foge do clichê "Bem versus Mal" do maniqueísmo (doutrina segundo a qual o Universo foi criado e é dominado por dois princípios antagônicos e irredutíveis: Deus, o bem supremo, e o Diabo, o mal absoluto). Pode-se dizer até que o romance estabeleceu um marco de qualidade superior para o tema que tinha, como principal referência, o bélico e politicamente crítico A guerra dos mundos, de H.G. Wells.

A partir de O fim da infância, tornou-se possível à literatura ficcional científica tratar das interações entre espécies e civilizações diferentes de forma a alcançar novos parâmetros de interpretação, inaugurando uma temática que seria recorrente — no livro/filme 2001: uma odisseia no espaço (1964/1968) — na carreira de Clarke: a vida humana justificada por sua evolução final e transcendência cósmica.


Publicado em 1953 com o curioso alerta "As opiniões aqui expressas não refletem a opinião do autor", o livro fala da última geração de homens a habitar a Terra, daí o título, que sugere que a humanidade entrará, com a chegada dos Senhores Supremos, em uma era de maturidade.

Quando lê o livro pela primeira vez, o leitor provavelmente sentirá um grande impacto existencial: nada faz sentido! nem a busca pela felicidade e a luta por ideais, nem a crença em Deus e a esperança num porvir. Ao ler o livro pela segunda vez, novamente terá a sensação de estranhamento em relação as implicações existenciais. Mas desta vez, compreenderá o que Clarke quer defender: a humanidade só encontrará o seu sentido quando for capaz de interagir com as forças desconhecidas do Cosmos.

Mas, afinal de contas, qual é mesmo o propósito final dos alienígenas? A resposta é chocante. Passados 50 anos desde sua chegada, os Senhores Supremos decidem mostram-se pela primeira vez. Quando o fazem, várias pessoas chegam a desmaiar. Seriam eles o cumprimento às avessas de uma profecia? Uma possível interpretação místico-religiosa para o livro é inevitável, mas não é a única, embora possivelmente a mais perturbadora.

Em todo caso, se o título do romance nos remete ao encontro da humanidade com o fim de seus sonhos e ilusões, a obra nos mostra também a maturidade precoce do autor que é herdeiro direto de Olaf Stapledon e Theodore Sturgeon, autores de uma metafísica e de uma tradição na literatura filosófica e de ficção científica que liga a humanidade a um esquema cósmico: a passagem do estágio homem para um ser além do imaginável.

O fim da infância é um livro que não pode faltar na sua estante. Eu já garanti o meu! o/

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Link direto: http://www.editoraaleph.com.br/site/ficcao/o-fim-da-infancia.html

BIBLIOGRAFIA:
O Fim da Infância (Childhood's End), de Arthur C. Clarke. São Paulo: Aleph, 2010, 319p.
2001: uma odisséia no espaço (2001 - A space odyssey), de Arthur C. Clarke. Rio de Janeiro: Edibolso, 1975, 227p.
A guerra dos mundos (The war of the worlds), de H. G. Wells. Rio de janeiro: Objetiva, 2007, 236p.