sábado, 6 de outubro de 2012

canção de Pipa


Passados alguns meses desde a última postagem, publico agora mais um capítulo do meu livro .

Por favor, leiam e comentem:



***


CANÇÃO DE PIPA


Era um sonho feliz.

Passageiros do vôo 2083 para Natal — anunciou o sistema de auto-falantes. — Queiram se dirigir ao Portão 34 para embarque...

Era o seu vôo, confirmara em seu neurolink e no gigantesco monitor que exibia os horários.

Estava feliz, a mulher ao seu lado, a mão dela apertando a sua.

Ao lado dela, uma criança sorridente esticava a cabeça, fascinada com os hologramas de golfinhos brincalhões saltitando próximo à praia. A garotinha de cinco anos estava ansiosa, veria animais de verdade pela primeira vez.

— Vamos — a voz carinhosa do pai rompeu-lhe o devaneio. — É o nosso vôo, bonequinha — e dirigiu-se com a família para o portão de embarque.

Ouviu o bip distante e estridente de um alarme em algum lugar do aeroporto, o barulho de pés apressados. Alguém estava atrasado, ele pensou.

Depois, pessoas gritaram às suas costas, correndo em todas as direções.

As sinapses trovejaram em seu cérebro. Ele tentou acelerar, mas era tarde demais. Antes mesmo que pudesse se virar, fora atingido por uma poderosa trovoada que o arremessou a dez metros de distância.

Caíra no chão, desorientado, sentindo o sangue ebulir nas veias, injetado com uma dose altíssima de adrenalina.

Tentou erguer o corpo, apoiando-se nos braços, mas o membro esquerdo fora arrancado na altura da omoplata e substituído por um esguicho escuro, intermitente. Cambaleou, os pés escorregaram e ele ficou ali, caído, mergulhado na poça vermelha que se formava sob si, com a consciência se esvaindo a cada mililitro de sangue derramado.

A última coisa que viu, antes de ter a cabeça despedaçada por um disparo, foi a mulher e a criança, em meio a uma selva de pernas no saguão do aeroporto de São Paulo, serem lancinadas por meia dúzia de trovoadas poderosas.

* * *

César despertou na semi-escuridão, como sempre acontecia, e o cheiro de sangue dissipou-se no calor da noite.

Sentou-se, girando as pernas para fora da cama. O corpo bronzeado estava molhado de suor e os lençóis, úmidos. Fitou o braço esquerdo por alguns instantes, abrindo e fechando a mão repetidamente como se a estivesse exercitando, sentindo os tendões trabalharem, ora contraídos, ora relaxados, sob a pele do antebraço.

Um mosquito chupava-lhe o sangue próximo ao pulso, sem se intimidar com os seus movimentos. Com um golpe rápido, reduziu o inseto a um pequeno borrão vermelho na palma da mão direita.

Olhou para a escrivaninha, para o relógio antiquado com pulseira de couro sintético escuro ao lado de uma garrafa de Melt vazia, marcando quinze para as duas. Faltava pouco mais de uma hora para a faina.

Nu, com a cabeça doendo, ficou em pé e caminhou até a janela de venezianas. Uma brisa agradável foi soprada em seu rosto por entre as ripas de madeira de lei enquanto perscrutava a espuma plástica esbranquiçada das ondas, iluminada pelo luar, varrer a praia abaixo da encosta.

Olhou o horizonte. Céu e mar uniam-se ao longe, sem traço de separação, com uma névoa diluindo-se à distância. A lua em quarto crescente estava parcialmente encoberta pelas nuvens e o ar parecia condensar-se numa treva desolada que pesava, imóvel, sobre a vastidão do oceano.

Ele se voltou para o quarto, para as paredes de estuque branco do que um dia fora o hotel Sombra e Água Fresca. A areia havia cedido, provocando o desmoronamento da porção norte do hotel. Lá, as paredes e o telhado haviam desaparecido, mas parte da estrutura ainda estava dependurada: grandes blocos de concreto e alvenaria presos a tendões de aço enferrujados e retorcidos.

Vestiu uma bermuda cáqui gasta e uma camiseta branca, calçou um par de chinelos de borracha e saiu, envolvendo o pulso esquerdo com o relógio. Precisava de uma bebida.

Pouco passava das duas e as ruas marginais de Pipa estavam calmas e silenciosas. O único lugar movimentado e barulhento era a avenida principal, repleta de luzes, restaurantes, bares, boates e pessoas.

Na Cahill’s, um feixe de laser verde queimava o espaço, ora concentrado em puras linhas geométricas, ora espalhado em um milhão de minúsculas partículas, dardejando a cara da multidão que se remexia sobre o chão de paralelepípedos, hipnotizada pelo som das poderosas batidas eletrônicas do hallucinated speed.

César se afastou do centro delirante da massa e abriu caminho pela periferia até a porta do Oz, onde dois geeks alcoolizados tentavam impressionar duas garotas que eles não sabiam ser de programa.

— Cada tipo de modelo quântico é tão estranho quanto o quadro de Dalí. — César ouviu um deles dizer. — Afinal, porque uma partícula tão pequena também não poderia dar a luz a um cavalo cego mordendo um telefone?

O outro geek bêbado concordou com a cabeça e as duas putas deram risadinhas.

César se afastou do quarteto e achou um lugar no balcão ao lado de um australiano acompanhado de algumas mulheres muito velhas, vestidas de modo a provocar luxúria. Numa época de beleza e juventude ao alcance do bolso, feiúra e velhice haviam se tornado uma espécie de fetiche naturalista.

Uma das velhas fez soar uma risadinha histérica que se elevou acima do barulho estridente da música e das centenas de conversas aleatórias simultâneas. César não se incomodou. Fez um sinal para o barman e este lhe empurrou uma dose faiscante de drinklone, que ele bebeu num só gole. Tomou ainda outra dose da bebida antes de pagar a conta e descer para a praia por uma das muitas escadarias de madeira incrustadas nos taludes rochosos encabeçados por resquícios de mata atlântica.

Naquela madrugada de extrema maré baixa, a pequena praia central estava emersa e vazia. Apenas um bando de gaivotas passeava pelo areal, indiferente.

César foi caminhando na estreita faixa descoberta de areia suja, úmida e fria, passando pelos muros de um hotel em ruínas e pelo o que fora o Garagem Barco Bar e a estátua de São Sebastião, de Agnaldo Simoneti, sobre uma rocha ferrosa, seguindo a curva do molhe de pedras construído, um século atrás, com o intuito de impedir o avanço do mar sobre o continente.

As colunas de sustentação do píer, acima do molhe, estavam cobertas por uma substância escura, betuminosa, e a quilha de um navio destroçado estava presa às pedras, juntamente com latas estragadas de sopa de batata e algumas armadilhas para apanhar lagosta. A arrebentação ali era mais forte: a cada onda, um estouro.

A lota também estava vazia e as luzes amareladas dos postes conferiam ao cenário uma aura indefinida, como num sonho. Os pequenos barcos de pesca e as traineiras repousavam silenciosos no pedaço poluído de mar aprisionado entre o molhe e a faixa de areia. No centro, Samutiri, o senhor do mar, aguardava os seus tripulantes para mais um dia de trabalho.

César esperou ali, junto à porta branca com o nome da traineira gravado em letras negras, ouvindo a sibilância bidirecional dos hidrofólios semi-submersos instalados no quebra-mar. O ar fluía através dos seus respiradouros, ora comprimido, ora descomprimido, produzindo trezentos quilowatts de energia à medida que o estouro das ondas fazia o nível da água subir e descer nos seus interiores.

Um a um os demais tripulantes foram chegando e, num intervalo de meia hora, todos estavam presentes, num total de dez. De poucas palavras, cada homem começou, com movimentos rápidos e mecânicos, treinados pela rotina, a preparar a partida. César verificou os motores e as luzes. Os outros organizaram os aprestos e as redes, levantaram a âncora e enrolaram os cabos.

Depois de tudo pronto, desapareceram nas entranhas do barco, deitando-se no porão, nas camas que os acolheriam até a faina em mar-aberto, com o som ininterrupto do velho motor a combustão, que podia ser ouvido em qualquer ponto da embarcação, martelando em suas cabeças.


FIM

domingo, 18 de março de 2012

Finnegan

Disponibilizo aqui mais um capítulo do livro O Terceiro Homem ainda em processo de escrita. Inicialmente, o enredo do livro teria apenas um núcleo narrativo no qual Finnegan seria a personagem principal. Com o passar do tempo e a cada capítulo escrito, outras personagens foram ganhando força e por isso o autor resolveu dividir o enredo em quatro núcleos: Finnegan, o Mnemante, o Agente e Sofia Lamborn. Este capítulo (assim como o capítulo postado anteriormente: O Mnemante) é o primeiro do seu respectivo núcleo.


Por favor, leiam e comentem:


***

FINNEGAN


Mesmo para um engenheiro de sistemas beta-menos, trabalhar para uma companhia indiana de coleta de lixo espacial era um túmulo no qual Finnegan podia enterrar todos os seus anos de estudo na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Ganharia alguns trocados e mais tarde sairia desta vida tão pobre quanto estava quando havia entrado nela.

Filho da classe média, de pai burocrata, tinha tudo para ser um aluno com excelente rendimento e um engenheiro reconhecido como alfa-mais pela Alta Coordenação.

Mas a vida lhe pregara uma de suas peças e ele acabou seguindo por um caminho muito diferente daquele que o destino costuma traçar para um jovem média ingresso num curso de engenharia.

Quando o pai de Finnegan ficara doente do coração, ele quase teve que deixar a universidade, pois grande parte dos recursos financeiros da família fora usada para pagar as muitas despesas médicas. Um coração clonado custava caro e para equilibrar o orçamento doméstico, manter o orgulho da classe e a possibilidade de ascensão do filho, sua mãe tivera que se desfazer de uma quantidade substancial do acanhado patrimônio familiar.

Os recursos financeiros escassearam e o pai de Finnegan fora obrigado a trocar o hospital por um substituto mais barato: uma clínica chinesa clandestina no Bairro da Liberdade. O tipo de lugar onde não se precisava marcar hora para cirurgia. Era só entrar, e eles já abriam o peito do paciente e tacavam-lhe o coração de um doador involuntário de algum lugar da Ásia Meridional. E depois de dois dias internado em regime de isolamento numa bolha de plástico alugada, despachavam-no para casa, onde continuaria o tratamento com medicamentos imunossupressores.

Quando o pai de Finnegan morreu, deixando a família na bancarrota, sua mãe fora acometida por uma mudança repentina. Parecia ter perdido a fibra e, durante horas a fio, ficava sentada no sofá com os olhos fora de foco, caída no marasmo natural de quem se conecta à Netcy e se enterra aos poucos em uma dúzia de novelas e outras enrolações sintéticas. Algumas vezes, quando saia do seu estado de torpor, ou tentava suicídio ou ficava a conversar com o fantasma do marido.

O jovem Finnegan, que na metade da sua graduação não estava nem um pouco equipado para ganhar dinheiro ou lidar com a situação, tivera que encarar o duro mercado de trabalho que não oferecia muitas oportunidades para um rapaz ainda sem diploma superior. Por acaso, conseguira um trabalho de meio período como folksonomista freelance para a Lexer Brasil.

O negócio era aparentemente simples. Finnegan tinha que obter e classificar informações de uma nuvem de dados da Wired. Em seguida, ele fazia o upload dessas informações para o banco de dados da Lexer Brasil. Daí, se as informações fossem úteis e utilizáveis, Finnegan recebia o pagamento.

A Wired não era um domínio seguro e conhecido como a Netcy. Em outras palavras, a Netcy estava para a Wired como a Terra está para a infinitude do universo. E se na vastidão do universo há o perigo de aniquilação por ejeções de massa coronal, radiação cósmica e partículas carregadas, na Wired você podia acabar dando de cara com as paredes de fogo de algum sistema corporativo ou com as estranhas emanações chamadas de Espíritos da Rede.

Com os poucos créditos que recebera como pagamento, Finnegan financiou o restante dos estudos e colocou a sua mãe em um asilo virtual.

Os asilos virtuais eram galpões enormes, repletos de tanques de suporte de vida feitos de acrílico – do tamanho de caixões funerários – empilhados verticalmente e distribuídos em grandes fileiras horizontais, alugados a um preço módico por quem não tinha dinheiro para pagar os caríssimos e avançados tratamentos de reiniciação do DNA e de psico-reprogramação. Os pacientes, ligados a um sistema de canais interconectados, tinham contato entre si numa espécie de cidade virtual, apartamentados porém por programas de proteção e manutenção psicologica chamados de barreira do ego e eu-como-deveria-ter-sido-como-eu.

Sedada por barbitúricos e mergulhada em fluido amniótico, a mãe de Finnegan era monitorada vinte e quatro horas por dia e recebia nutrientes e psicoterapia por vias intravenosas e intraneuronais. Vivia num simulacro, mas ela adorava aquilo lá. Passeava o dia inteiro com o constructo do marido e, de vez em quando, recebia a visita do filho que, de qualquer parte do planeta, poderia ter acesso ao sítio do asilo na Netcy e, com a autorização do gerontologista responsável, ao simulacro habitado pela mãe.

Finnegan poderia ter conservado seu dinheiro, ter pago por um certificado de alfa-mais no mercado negro das Altas Coordenações e ter ido estagiar numa zaibatsu japonesa, trabalhando entre gente adulta de verdade de uma classe social superior, mas sua mãe estaria morando na rua.

A atitude da classe média ante o declínio de sua família, mesmo entre outros beta-menos, era de um certo desprezo. Era a queda. Finnegan procurou se conformar e ver o bem-estar da mãe como sua fortuna pessoal. E após a sua graduação como engenheiro beta-menos e de todas as recusas profissionais que havia recebido, ele não perdeu tempo e agarrou a primeira oportunidade de emprego que lhe apareceu.



Dois anos na Índia e a vida lhe dera uma nova rasteira. Perdera todas as suas economias após Chennai, a quarta maior cidade indiana, ter sido parcialmente devastada por uma série de tsunamis que arrasou a costa da maioria dos países banhados pelo Oceano Índico. Se ele não tivesse convertido a totalidade do seu chip de crédito em um maço gordo de rúpias escondido no colchão... Mas no submundo indiano, assim como no circuito fechado dos mercados negros globais, o que continuava mesmo a valer era o dinheiro vivo, o velho papel-moeda.

Para a sorte de Finnegan, quando tudo ocorreu, ele estava no Espaçoporto Satish Dhawan, em Sriharikota, a noventa quilômetros ao norte de Marina Beach, protegido das ondas de até trinta metros de altura pela barreira de cilindros ressonantes de Fudan. Estava de partida para uma escala de quatro meses no espaço, na Estação Espacial Internacional.

Um ano após o catastrófico maremoto, Chennai ainda recuperava o seu brilho efervescente e Finnegan, com muito esforço, novamente conseguira economizar algum dinheiro. Para poupar créditos, passara até a dormir nos esquifes mais baratos, naqueles dos chawls perto do porto, de onde se podia ver a linha de progradação de Marina Beach, ao sul do rio Kuvam com os seus bancos errantes de espuma plástica, como um enorme palco iluminado à noite pelos refletores da Santhome High Road.

Finnegan estava com vinte e seis anos e desde os vinte e três trabalhava para a Empresa Aeroespacial Indiana. Três anos era tempo mais do que suficiente para se receber uma promoção, Finnegan pensou enquanto atravessava o portão de desembarque do espaçoporto, voltando de mais uma escala na EEI. Mas ele nunca fora promovido.

Parado junto à janela panorâmica do saguão, lembrou-se da namora, a jovem Nita de dezessete anos, e da saudade que sentia enquanto estava longe dela; saudade esta que só deixava de ser sentida quando, enfim, a tinha em seus braços. Afora a motivação de cuidar da mãe, pensou Finnegan, Nita era a única pessoa em toda a Índia que parecia tornar suportável a sua permanência ali.

Tentou se comunicar com a namorada, mas ela não atendeu a ligação. Era cedo da manhã, ocorreu-lhe, e Nita que não era dada a madrugar. Com certeza ela ainda estava dormindo.

Olhou através da janela panorâmica e ficou momentaneamente ofuscado pelo clarão de um foguete russo alugado, carregado com equipamentos norte-americanos que iam para Marte. Um borrão avermelhado formou-se em sua visão, desaparecendo alguns minutos após a nave ter se distanciado e se tornado um ponto incandescente no espaço.

Ele não gostou de ser ofuscado, nem mesmo por um instante. No entanto, não tinha créditos suficientes para comprar a mais nova lente de contato da japonesa NEC e, por este motivo, tinha que se contentar com a sua Sensimed sem filtro luminoso.

— Quem diria. Os americanos estão no chão — enquanto se afastava da janela, Finnegan ouviu alguém usar o jargão aeroespacial numa conversa sobre os Estados Unidos estarem dependendo inteiramente dos seus parceiros russos, japoneses e europeus.

Estava amanhecendo e os cinco níveis do espaçoporto estavam lotados de pessoas e cargas. No nível superior, havia cientistas conceituados de vários países, magnatas industriais brasileiros e chineses, príncipes sauditas, uma estrela pop japonesa e um ex-primeiro-ministro inglês. Já nos quatro níveis inferiores, havia militares, alguns técnicos da Empresa Aeroespacial Indiana e de outras empresas e agências estrangeiras, sondas espaciais norte-americanas, satélites turcos, suprimentos para a clínica orbital russa, equipamentos para as bases internacionais de pesquisa na Lua e em Marte.

Os passageiros ilustres do nível superior voariam até a Estação Espacial Comercial, propriedade das empresas russas Orbital Technologies e RSC Energia. Também chamada de hotel espacial, a EEC era voltada para o turismo espacial, servindo como plataforma giratória de vôos. Uma parada curta na EEC, por exemplo, era perfeita para aqueles que podiam pagar por uma viagem ao redor da Lua e desejassem visitar a sua zona de exclusão aérea num vôo tangencial sobre os sítios históricos da era de ouro da exploração espacial. Já a equipe de técnicos nos níveis abaixo voaria para a Estação Espacial Internacional, mais voltada para laboratórios de pesquisa.

Ao sentir o cheiro da comida vindo do restaurante na ala norte do espaçoporto, Finnegan começou a sentir fome. No espaço, ele não sentia muita fome, pois na ausência de gravidade os aromas dos alimentos se dissipam antes mesmo de chegarem ao nariz. E quando não se consegue sentir o cheiro da comida, não se é possível saboreá-la plenamente.

Ele dirigiu-se até o restaurante, onde achou um lugar no balcão. Enquanto consultava o menu, os monitores do saguão noticiaram a manobra de elevação da Estação Espacial Comercial para evitar a colisão com um fragmento de lixo espacial e mais uma seqüência de testes bem-sucedidos no Stratolaunch Systems II e no Super Heavy Lift Rocket, das norte-americanas Virgin Galactic e SpaceX, concorrentes pesos-pesados do Tsien IV, da chinesa Tsung.

Finnegan não prestara atenção na reportagem, pois estava ocupado demais sentindo inveja de um engenheiro australiano da Tolley & McConnell, sentado três lugares a sua esquerda, de terno preto e com um chip de crédito corporativo tatuado nas costas da mão direita. O rapaz não devia ter mais do que a sua idade, Finnegan observou, e já era um empregado de certo nível. Um alfa-mais, certamente.

Finnegan, no entanto, continuava a vestir o seu velho macacão espacial, metido no qual mal podia afastar os braços do corpo no interior da estreita cabina da cápsula extraveicular Kudriavka. Um beta-menos coletor de lixo espacial. Ele começava a sentir-se um idiota.

Com um gesto, o australiano chamou a garçonete e pediu “brekkie” — uma gíria de seu país para café-da-manhã. Ela sorriu-lhe com langor e, cinco minutos depois, serviu-lhe um verdadeiro banquete matinal. Havia frutas tropicais, suco de cenoura com mexericas, café brasileiro, cottage, chapatti com manteiga ghee, idli, dosai, puris, yellow potatoes, gulab jamuns, chatni.

Finnegan, com o pouco que ganhava, pôde gastar apenas dez créditos numa xícara de chai e num chapatti sem acompanhamento.

Depois de comer, foi para casa. Estava exausto e, apesar da saudade, deixaria para ver Nita à noite, quando estivesse com as energias recobradas. Havia deixado-lhe uma mensagem carinhosa na sua caixa de recados, convidando-a para um jantar no Dhaba – um restaurante popular de beira-estrada, três quadras a oeste do porto. Ele sabia que ela estava ansiosa para revê-lo e que, sem falta, compareceria ao encontro. Ficou feliz por poder ter certeza disto.


FIM

domingo, 18 de dezembro de 2011

O Mnemante

Pensado inicialmente como um conto, O Mnemante (2011) acabou tornando-se um capítulo de um dos quatro núcleos narrativos do livro de ficção científica cyberpunk O Terceiro Homem (ainda em processo de escrita), do escritor amador natalense Nivanio JB.

Por favor, leiam e comentem:

***
O MNEMANTE


"Bob Cornish chegou em casa umas quinze para as quatro, depois de passar no Denni's e comprar o seu café da manhã. Morava só em um loft escuro, no quinto andar de um antigo edifício comercial na esquina da Christopher com a Seventh Avenue.

Ele estacionou o carro e dirigiu-se para o elevador. Havia um cheiro excepcionalmente forte de urina e vômito em seu interior naquela manhã, então decidiu não usá-lo. Subiu três lances de escada na escuridão da garagem no subsolo e depois mais cinco à partir do térreo.


Tinha o seu eyeclops na mão, mas não precisou usá-lo. Conhecia bem o percurso e, por isso, encontrou facilmente o caminho entre poças de água estagnada e emaranhados de cabos de fibra ótica suspensos.


Nunca se via ninguém no prédio, mas algumas vezes era possível ouvi-los; música através de uma porta fechada ou vozes distorcidas e passos apressados logo após a dobra no final de um corredor. Bob preferia assim; também não desejava encontrar seus vizinhos.


Fechou a porta atrás de si e entrou no cômodo estreito, cheirando a mofo, que era a pequena cabina radioprotetora de vidro plumbífero que ele próprio montara. Esperou a medição do obsoleto Polimaster, o aviso indicou níveis aceitáveis. Acendeu uma tira biofluorescente da Leah Buechley colada em uma das quatro paredes de plástico branco e argamassa baritada cobertas de fungo que compunham o loft e jogou a edição daquela manhã do Newssobre o sofá. Na primeira página, havia outros títulos: “3RS desenvolve nova tecnologia sinchip”, “Animais vivos para todos os gostos e bolsos, anuncia a Clonest Biotechnology”, e a grande manchete: “Mnemante ataca novamente”.


Contente por estar em casa, Bob baixou as persianas, tirou as frias roupas de borracha plúmbea com protetor de tireóide e caminhou descalço sobre o chão coberto por mosaicos brancos até o banheiro, onde tomou um demorado banho de vapor quente.


Vestiu um agasalho de tecido sintético semelhante ao algodão, calçou um par de chinelos plásticos que estavam encobertos sob uma pilha enorme de revistas velhas que havia desabado em cascata e apoltronou-se na grande cadeira ordinariamente estofada do console, olhando para o teto de placas corroídas. Retirou um copo plástico grande de coca-cola, um sanduíche morno e uma caixinha de batatas fritas do pacote de papel sobre o seu colo e começou a comer enquanto usava a mão livre para plugar-se ao deck da YDream.


Bob ligou o dispositivo e o teto desapareceu imediatamente, encoberto por uma supernova extremamente brilhante que projetava pontos de luzes variadas pelas paredes e pelo chão. Quando fechou os olhos, a estrela continuou a brilhar intensamente sob o fino véu das suas pálpebras, mas ela logo colapsou, tornando-se uma pulsar tão luminosa quanto uma galáxia. Ele sentia os pontos de luz moverem-se sobre o seu corpo, como as luzes de cidades acima ou abaixo dele. No entanto, ali não havia mais alto ou baixo e então a estrela continuou a colapsar, as luzes girando em uma velocidade que não podia ser medida. Era como se ele estivesse em algum lugar do espaço, numa bolha de vidro entre as estrelas que caiam em sua direção, atraídas para ele como uma chuva de meteoros. Bob havia se tornado uma singularidade no espaço-tempo, um buraco negro do qual as estrelas links não podiam escapar.


Isso tudo não durou mais que dois segundos e Bob já estava acostumado com a sensação vertiginosa do input na alucinação que era a Netcy; uma alucinação consensual, uma constelação infindável de dados, vivida diariamente por bilhões de pessoas – homens e mulheres, adultos e crianças – no mundo inteiro.


Bob enfiou na boca, de uma só vez, o último quarto do sanduíche e tomou um gole farto do refrigerante para não engasgar. Tinha pressa. Escolheu um link que orbitava acima da sua cabeça, acessou a sua conta no My Self e fez uma nova visita ao perfil de Mona Stephenson. Aquela era, talvez, a centésima vez que ele visitava o seu perfil. Ficara fascinado por ela desde a primeira vez que a vira, há duas semanas, na lista das “cem melhores memórias compartilhadas” eleitas pelos usuários da rede social no banco de dados da Memory Lane.


Deitado na poltrona reclinável, de olhos fechados na sala escura, Bob acessou o álbum de memórias que Mona disponibilizara na rede. Escolheu novamente o arquivo “momentos em família” e escorregou para dentro do mundo de Mona.


Um retângulo branco apareceu em sua visão, acinzentou-se e ficou tremido como se o operador de uma câmera a movimentasse. Levou alguns segundos para sincronizar o equilíbrio, pois Bob passara a enxergar através do ponto de vista da garota.


Era primavera sob os geodésicos e um schnauzer miniatura, com orelhas pontudas como as de um pinscher, apareceu brincando entre as pernas da Sra. Stephenson que ria ao mesmo tempo em que tentava entrar na cozinha com as sacolas de compras sem tropeçar no cãozinho. Mona também ria bastante vendo o cachorro mordiscar as pernas da calça da mãe. O YDream simulou a sensação e o receptor sensorial do sistema nervoso central de Bob processou o estímulo na forma de uma emoção crescente; era a alegria de Mona materializando-se dentro dele, o corpo todo dela tremendo, o peito balançando de tanto rir.


Mona olhou para a mãe que retribuiu o olhar com um sorriso amável. Bob imobilizou a imagem e deu umclose na Sra. Stephenson. Em seguida, apertou o controle e o filme recomeçou.


Houve um golpe de excitação. A Sra. Stephenson era uma mulher jovem e atraente. O seu corpo esguio metido em calças jeans justas e em uma camisa branca com lapela levantada, o peito alteando-se no decote quando ria e a pele branca contrastando com o cabelo escuro agitado pelo vento fez com que uma ereção se avolumasse sob as calças do agasalho de Bob. Mas o sacrílego abrasamento antinatural logo chocou-se em perpétuo conflito com a enormidade do respeito de Mona pela mãe e ele estremeceu, sentindo uma pitada de remorso. Suas mãos apertaram os braços da poltrona, os dedos meteram-se no enchimento e o close se desfez.


— Huan, seu malvado! Você vai apanhar! —, gritava Mona. — Huan! —, e Bob viu-se correndo atrás do cachorro, sem conseguir alcançá-lo, pois os pezinhos minúsculos da menina não podiam de jeito nenhum competir com as patas ágeis do cãozinho que pinoteava e desviava o corpo, forçando Mona a dar voltas à toa com os bracinhos roliços estendidos, golpeando o ar.


— Huan — estrilava Mona com o máximo de voz que lhe permitiam os sete anos de idade —, fica quieto! — e se sacudia toda, quase sem fôlego, de tanto que ria.


Quando Mona finalmente conseguiu agarrar o cachorro, Bob sentiu os oito quilos do animal pesarem em seus braços. Sentiu também a maciez de sua pelagem prateada de tosa curta e uniforme, ressaltando a densa barba e as grossas sobrancelhas.


De repente, um corte para uma tomada mal iluminada. A imagem estremeceu, desfocou e ficou nítida subitamente. Bob estava em uma festa de aniversário batendo palmas de forma ritmada. As pessoas cantavam parabéns. Willy Stephenson, de onze anos, irmão de Mona, estava sentado do outro lado da mesa, com o bolo à sua frente. As chamas bruxuleantes refletiam-se em seus óculos, até que ele soprou as velas e tudo escureceu. O Sr. Stephenson apareceu atrás dele, acendendo as luzes. A Sra. Stephenson surgiu ao seu lado, tão bela quanto em sua primeira aparição, segurando uma caixa grande com laço.


Mona olhou em volta, revelando uma dúzia de meninos e meninas da escola de Willy e alguns parentes e amigos da família.


Willy abriu o presente e em seguida cortou o bolo com o auxílio da mãe, oferecendo-lhe o primeiro pedaço.


Agora Mona também comia uma fatia e Bob sentiu o sabor doce do chocolate confundir-se na boca com o salgado, das fritas. O bolo estava delicioso; uma saborosa distorção, a mais doce confabulação de uma experiência imaginada gerando um simulacro de bem-estar e felicidade. Ele nunca assimilara uma informação igual, tão próxima do que se poderia chamar de realidade; uma memória tão docemente falsa implantada em sua mente, processada no hipocampo, armazenada pelo lobo frontal, manifestando-se como uma lembrança pueril remontada a partir das memórias e impressões sensoriais dispersas no cérebro de Mona.


Novamente um close na Sra. Stephenson. Ela ria e mexia o cabelo. E agora Bob também ria, um riso puro e infantil, e mexia o cabelo com o bracinho roliço de Mona, imitando a elegância dos movimentos da mãe. Ele sentia-se imbuído de admiração. Quanta felicidade, quanto amor havia naquelas memórias. Eram maravilhosas. Gostaria que as suas próprias fossem assim.


Lembrou-se das belas recordações de Debbie Dainard e Lily Owens, dos seus momentos em família. Lamentou o resultado que dera às suas últimas lembranças, sem nenhuma sensação de paz ou clímax.


Bem. Precisava superar isso. E com Mona seria diferente. Havia adquirido experiência e não cometeria os mesmos erros."


FIM

domingo, 8 de agosto de 2010

Não verás país nenhum

Não verás país nenhum (1981), escrito pelo jornalista e compositor literário Ignácio de Loyola Brandão (*31/07/1936), é um alerta bastante sério do que nos espera no futuro.

O romance, considerado o mais pessimista e devastador da literatura brasileira, conta, em seu enredo apocalíptico, a história terrível de um mundo a frente do atual, num futuro indeterminado no qual a humanidade vive com a herança do desastre ambiental deixado pela sociedade moderna. A Amazônia foi transformada em um deserto sem árvores, a poluição dos aquíferos tornou a água imprópria para o consumo, o lixo se acumula nas cidades em imensas colinas habitadas pela parcela miserável da população e, no interior, bolsões de ar quente fulminante matam pessoas e animais.

Na ficção, a educação ambiental poderia ter salvo o país desse grande desastre ecológico — isto, é claro, se houvesse interesse da classe política. Mas, ironica e semelhantemente à "vida real", a administração do Brasil de Não verás país nenhum está nas mãos de governantes medíocres, interessados apenas em vantagens pessoais.

Em linhas gerais, o livro é um espantoso prognóstico de um futuro desastroso, no qual a falta de políticas de preservação ambiental e o desenfreado desenvolvimento tecnológico-industrial acabam tornando martirizantes as condições de vida no planeta.

Loyola localiza o enredo na Grande São Paulo que, no futuro, torna-se uma cidade ainda mais subdividida em castas. Segundo ordens do Esquema — sistema governamental em vigor —, cada cidadão deve circular apenas em determinadas áreas da metrópole superpovoada já que não há lugar para todos. Mas tudo não passa de um plano macabro de segregação. Ao governo incompetente, resta o que, para ele, é a solução mais prática e imediata ao problema do superpovoamento: abandonar a população a esmo, condenando-a à fome e à morte numa espécie de seleção natural diabólica.

O pano de fundo do enredo não é muito diferente do expediente comum do subgênero Distopia, de modo que o leitor não tardará em identificar uma atmosfera similar aos clássicos Nós (1921), de Zamiatin, Admirável mundo novo (1932), de Aldous huxley, e 1984 (1949), de George Orwell. Porém, diferentemente destes, o Esquema de Loyola não consegue domar completamente o individualismo nem tampouco manter a ordem. Não apenas a subversão é inevitável, como nasce do grande número de excluídos do Esquema. No entanto, a incompetência do Esquema em estabelecer a ordem não impede que os castigos conferidos aos seus cidadãos sejam menos cruéis do que as torturas a que Winston Smith é submetido em 1984.

É nest
e contexto que Souza, o protagonista da trama, cidadão pacato, casado, ex-professor de história e agora burocrata, gradativamente se desvia de sua rotina e torna-se um subversivo. Ele carrega o enredo contando, por meio de relatos cotidianos, as dificuldades e as situações que enfrenta no seu convívio social.

Situações como, por exemplo, no bar de baixa circulação que Souza costuma frequentar já que a vida social lhe é sufocante. Lá, ao pedir um copo de água gelada para aplacar o calor insuportável, ouve do dono do bar que água é um artigo de luxo difícil de ser encontrado. Diante do absurdo, resta a Souza se conformar e matar a sede (que não é pouca) com um certo líquido, substituto da água, produzido industrialmente para fins de consumo: urina reciclada.

Fora do bar, Souza enfrenta diversos outros problemas como a necessidade de autorizações especiais para circular (a pé ou de lotação) já que sua credencial de funcionário público não lhe permite deslocar-se por toda a cidade.

Sua crescente insatisfação com o sistema é representada por um furo que aparece misteriosamente em sua mão e que aumenta de tamanho de forma proporcional ao desenvolvimento de sua autoconsciência. Souza, a medida que se rebela contra o sistema, perde sua confortável condição de burguês, a esposa o abandona e uma sucessão de eventos o torna um excluído; primeiramente do seio familiar e, em seguida, do seio da sociedade.

Negado-lhe o direito de ir e vir, impossibilitado de exercer sua individualidade e de se expressar livremente — o próprio personagem explica: "o fiscal pode ser o homem à sua frente, ao lado. Em qualquer parte" (p.41) —, Souza passa a sofrer uma crise existencial. Para ele, o tempo parece não mais existir e resta-lhe refletir sobre sua condição; única saída do absurdo que sua vida se tornou.

Mas, resistir é inútil! Toda e qualquer tentativa, desde sua concepção em pensamento, é um combate já perdido.
Primeiramente porque a arma mestra do Esquema é a alienação. Ou seja, a verdade é esta em que se vive, sem possibilidades de questionamento: "Convivi com a distorção, aceitei-a como realidade. Também já perdemos o conceito de real." (p. 217)

Segundo porque o Esquema prega a idéia de imutabilidade da história por meio da desmemorização coletiva, de modo
que o cidadão não tem mais referenciais de comparação: "Julgamento da história? Aqueles homens pretenderam eliminar a história, tentando apagar o futuro." (p. 104)

E o que o futuro reserva para Souza? absolutamente nada! Abandonado por sua própria classe, resta-lhe a convivência com os demais excluídos cuja humanidade não é mais do que uma lembrança distante em seus corpos disformes, assim como o furo em sua própria mão.

No entanto, ainda há esperança. A mudança é sugerida no enredo como uma flor que brota milagrosamente no
calor causticante do deserto. Em outras palavras, a esperança reside na patética resistência de jovens como o sobrinho de Souza, aparentemente combativo ao sistema mas tão dogmático quanto aqueles que diz combater, e na estranha e jovem universitária Elisa, a qual torna-se amante de Souza e lhe combate a destrado, apesar dela mesma ser incapaz de ter plena consciência de sua própria situação.

O romance é um verdadeiro sucesso editorial. O livro — que já atingiu a vigésima terceira edição desde sua publicação no Brasil, em 1981 — é a concretização do sonho de Loyola que, desde pequeno, sonhava conquistar o mundo com sua literatura.

Não verás país nenhum foi publicado em vários países e traduzido para diversos idiomas, tendo, inclusive, recebido o Prêmio Illa de Melhor Livro Latino-americano publicado na Itália em 1983.

O sucesso da reedição de Não verás país nenhum deve-se, em grande parte, à atualidade de alguns de seus temas. Conforme Fausto Cunha, "o escritor de FC inteligente sabe de duas coisas: escreve para o leitor de seu tempo, que possui problemática própria; e escreve sabendo que seu futuro e seus mundos imaginários são meras extrapolações acessíveis ao homem de hoje" (in "Ascensão e queda da ficção científica", Revista Civilização Brasileira n. 13, maio de 1967). Neste sentido, Não verás país nenhum não foge à regra.

Embora suas previsões não sejam
completamente realistas, sendo por vezes ingênuas e fantasiosas, elas conseguem, por meio da extrapolação, expor claremente a idéia de catástrofe iminente e conferir um estatuto de tensão inevitável; características muito apreciadas em obras do gênero.

Outras obras brasileiras, contemporâneas de Não verás país nenhum, também apresentam tal estrutura (a descrição de
um regime totalitário e a luta de um homem por sua liberdade e humanidade) e, inevitalmente, ganham uma leitura alegórica quando observada em seu contexto. Zero (1975), também de Loyola Brandão, O fruto do vosso ventre (1976), de Herberto Sales, Os pecados da tribo (1976) e Aquele mundo de Vasabarros (1982), de José J. Veiga, entre outros, são romances interpretados como alegorias do regime militar da época de suas publicações.

A título de curiosidade... o título da obra é uma sátira cruel à poesia A Pátria, de Olavo Bilac, que, durante décadas, foi recitado e
decorado nas escolas pelas crianças brasileiras: "Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste! Criança! Não verás nenhum país como este!". A adoção do verso bilaqueano com seu significado virado ao avesso é uma mostra do ponto de vista crítico e carregado de ironia, de Loyola, em oposição ao róseo otimismo, do poeta.


BIBLIOGRAFIA:
Não verás país n
enhum, de Ignácio de Loyola Brandão. São Paulo: Global Editora, 2007, 414p.

Nós (Mi), de Evgueny Zamiatin. São Paulo: alfa-omega, 2004, 212p.
Admirável mundo novo (Brave new world), de Aldous Huxley. São Paulo: Globo, 2005, 318p.
1984 (Nineteen Eighty-Four), de George Orwell. São Paulo: Cia Editora Nacional, 2004, 301p.

Zero (1975), de Ignácio de Loyola Brandão. São Paulo: Global Editora, 312p.
O fruto do vosso ventre (1976),
de Herberto Sales.
Os pecados da tribo (1976), de José J. Veiga. São Paulo: Bertrand Brasil, 2005, 142p.
Aquele mundo de Vasabarros (1982), de José J. Veiga.
São Paulo: Bertrand Brasil, 1997, 208p.

sábado, 3 de julho de 2010

Nós

Cuidado! Querem fazer-nos acreditar na segurança da não-liberdade. Este é o alerta, o grito em defesa da liberdade que o leitor perceberá em Nós (publicado pela primeira vez no Brasil com o título A muralha verde), o livro de ficção-científica distópica que inspirou alguns escritores como Aldoux Huxley, em Admirável mundo novo (1932), Ayn Rand, em Anthem (1938), e George Orwell, em 1984 (1949).

Obra máxima do engenheiro naval russo Evgueny Zamiatin, Nós é um romance antecipatório. Escrito em 1920-21, o livro provocou uma perseguição encarniçada ao escritor na época em que tentou publicá-lo. Zamiatin foi atacado pela censura do partido comunista que, além de proibir a publicação de Nós, baniu todos os seus trabalhos das livrarias. Ele acabou exilado na França, onde faleceu em 1937, aos 53 anos de idade, sem jamais ter visto o seu livro ser publicado em sua Terra-pátria.

Na Rússia, devido à censura imperante no país, Nós circulou ilegalmente durante anos em forma manuscrita. Sua primeira publicação foi em 1924, na Inglaterra. O livro só adentrou legalmente a pátria-mãe do autor em 1988 com o declínio do regime soviético.

Em Nós, Zamiatin — de forma irônica e surreal, fazendo uso de uma linguagem contida e propositalmente disciplinada — profetiza a desumanização e a automatização dos pensamentos, a banalização e repressão das emoções e o extermínio dos que estão em desacordo com a ordem imposta e lutam para manter vivas imaginação e originalidade.

No universo de Nós, as personagens têm hora marcada para empreenderem esforços de procriação, em contatos extremamente impessoais. Os prédios são totalmente de vidro transparente nos quais os moradores são vigiados a todo momento; com excessão dos encontros íntimos, durante os quais é permitido fechar as cortinas por tempo programado.

A história do livro, narrada pela personagem principal D-503 — as pessoas não recebem nomes, mas números —, consiste em uma revolução sendo armada e deflagrada. O cotidiano de D-503 e de seus amigos I-330, U e O-90, assim como as causas da revolução, emergem na narrativa de forma fluida. A personagem principal descobre-se, a certa altura, doente e sua doença consiste no nascimento de uma alma.

O governo — o Estado Unificado, como o denominam — sob o comando do Benfeitor, regente supremo da nação, descobre uma maneira de curar essa doença, em princípio tida como incurável: a extirpação da imaginação. A mutilação constituindo-se em uma cura para o males da humanidade e da individualidade.

As personagens que à primeira vista são lógicas e impessoais, talvez pela forma como se relacionam, na verdade constituem-se em ricas combinações de sentimentos humanos. D-503 é um engenheiro que não resiste aos seus mais profundos anseios e escreve a estória à qual nos referimos. O-90 é doce e meiga. E a sedutora e subversiva I-330 é o estopim para a detonação da alma de D-503.

O final é pessimista e quase folhetinesco, mas clássico. Só posso dizer isso! Não posso contar mais, senão perde a graça. Rsrsrs ;)

A história de Nós é baseada nas experiências do autor com as revoluções russas de 1905 e 1917 e no período em que trabalhou, em 1916, supervisionando a construção de navios na Inglaterra. O livro é uma sátira futurista distópica, geralmente considerada o berço do subgênero. Mas há outros como A nova utopia (1891), de Jerome K. Jerome, e O tacão de ferro (1900), de Jack London.

É importante salientar que o referido Jerome K. Jerome tenha, muito provavelmente, exercido alguma influência no romance de Zamiatin. Em 1891, Jerome havia publicado o conto/ensaio A nova utopia que descrevia uma cidade — quiçá um mundo — abarcada por um pesadelo igualitarista onde os habitantes eram quase indistintos em seus uniformes cinza (similar as unifas, de Nós) e todos tinham cabelos pretos e curtos, naturais ou tingidos. Ninguém recebia nomes, apenas números costurados nas túnicas: pares para as mulheres, ímpares para os homens — o mesmo esquema da obra russa. A igualdade era levada tão ao extremo que pessoas com o físico bem-desenvolvido sofriam cirurgias para redução de membros — em Zamiatin, a cirurgia de nivelamento de nariz é sugerida.

Na obra de Jerome, aqueles com uma imaginação superativa eram submetidos a uma cirurgia que a reduzia — uma operação semelhante tem importância central em Nós. Ainda mais significativa é a apreciação, da parte de ambos os autores, pelo amor familiar e, por extensão, do individual como uma força disruptiva e humanizante.

É provável que o autor russo o tenha lido. A obra de Jerome teve três edições publicadas na Rússia antes de 1917, sendo estas muito conhecidas pela maioria das pessoas instruídas da época.

Quanto as influências de Zamiatin no trabalho mais conhecido do subgênero, 1984, de George Orwell — que começou a escrevê-lo alguns meses após ter lido uma tradução francesa de Nós e ter escrito uma resenha sobre a obra —, há registros de Orwell ter dito que iria tomá-la como modelo para o seu próximo romance. Eu não duvido disso! Pois, salta aos olhos que a estrutura narrativa dos dois livros é muito semelhante, o que dá realmente margem às acusações de plágio. A inspiração de Orwell é, no mínimo, inegável. Pois ambos tratam ,em suas narrativas, de uma incursão pela mente de um cidadão de um futuro distópico, habitante de uma sociedade controlada por um regime totalitário que começa a questionar sua realidade a partir da paixão por uma bela e jovem subversiva.

Em ambos os livros, o texto é assombrado pela presença opressiva de um líder onisciente e paternalista: o Benfeitor, em Nós, e o Grande Irmão, em 1984. O grande mérito de Zamiatin foi o fato (pois é fato) dele ter sido um visionário já que escreveu seu grandioso livro enquanto os regimes totalitários que tomaram conta da Europa e de boa parte do mundo nos anos 30 ainda se encontravam em fase embrionária, latente. Ele parece ter captado o perigo por trás da ideia de que o Todo deveria se sobrepor às partes, ou seja, o bem comum esmagando a liberdade individual.

Já quanto a influência de Nós sobre o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, o próprio Huxley explicou em uma carta, escrita por ele em 1962, que sua obra fora escrita muito antes dele ter ouvido falar da obra russa. Uhm... Desconfio. ¬¬

Seja como for, não creio que estes fatos tirem de Orwell e Huxley o brilhantismo e, sobretudo, a importância de suas obras. Contudo, é importante que a obra de Zamiatin seja melhor difundida, para que a justiça histórica seja feita. ;)

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BIBLIOGRAFIA:
Nós (Mi), de Evgueny Zamiatin. São Paulo: alfa-omega, 2004, 212p.
Admirável mundo novo (Brave new world), de Aldous Huxley. São Paulo: Globo, 2005, 318p.
1984 (Nineteen Eighty-Four), de George Orwell. São Paulo: Cia Editora Nacional, 2004, 301p.