SPRAWL CITY
Blog dedicado ao universo SCI-FI.
sábado, 6 de outubro de 2012
canção de Pipa
domingo, 18 de março de 2012
Finnegan
Por favor, leiam e comentem:
***
FINNEGAN
Mesmo para um engenheiro de sistemas beta-menos, trabalhar para uma companhia indiana de coleta de lixo espacial era um túmulo no qual Finnegan podia enterrar todos os seus anos de estudo na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Ganharia alguns trocados e mais tarde sairia desta vida tão pobre quanto estava quando havia entrado nela.
Filho da classe média, de pai burocrata, tinha tudo para ser um aluno com excelente rendimento e um engenheiro reconhecido como alfa-mais pela Alta Coordenação.

Mas a vida lhe pregara uma de suas peças e ele acabou seguindo por um caminho muito diferente daquele que o destino costuma traçar para um jovem média ingresso num curso de engenharia.
Quando o pai de Finnegan ficara doente do coração, ele quase teve que deixar a universidade, pois grande parte dos recursos financeiros da família fora usada para pagar as muitas despesas médicas. Um coração clonado custava caro e para equilibrar o orçamento doméstico, manter o orgulho da classe e a possibilidade de ascensão do filho, sua mãe tivera que se desfazer de uma quantidade substancial do acanhado patrimônio familiar.
Os recursos financeiros escassearam e o pai de Finnegan fora obrigado a trocar o hospital por um substituto mais barato: uma clínica chinesa clandestina no Bairro da Liberdade. O tipo de lugar onde não se precisava marcar hora para cirurgia. Era só entrar, e eles já abriam o peito do paciente e tacavam-lhe o coração de um doador involuntário de algum lugar da Ásia Meridional. E depois de dois dias internado em regime de isolamento numa bolha de plástico alugada, despachavam-no para casa, onde continuaria o tratamento com medicamentos imunossupressores.
Quando o pai de Finnegan morreu, deixando a família na bancarrota, sua mãe fora acometida por uma mudança repentina. Parecia ter perdido a fibra e, durante horas a fio, ficava sentada no sofá com os olhos fora de foco, caída no marasmo natural de quem se conecta à Netcy e se enterra aos poucos em uma dúzia de novelas e outras enrolações sintéticas. Algumas vezes, quando saia do seu estado de torpor, ou tentava suicídio ou ficava a conversar com o fantasma do marido.
O jovem Finnegan, que na metade da sua graduação não estava nem um pouco equipado para ganhar dinheiro ou lidar com a situação, tivera que encarar o duro mercado de trabalho que não oferecia muitas oportunidades para um rapaz ainda sem diploma superior. Por acaso, conseguira um trabalho de meio período como folksonomista freelance para a Lexer Brasil.
O negócio era aparentemente simples. Finnegan tinha que obter e classificar informações de uma nuvem de dados da Wired. Em seguida, ele fazia o upload dessas informações para o banco de dados da Lexer Brasil. Daí, se as informações fossem úteis e utilizáveis, Finnegan recebia o pagamento.
A Wired não era um domínio seguro e conhecido como a Netcy. Em outras palavras, a Netcy estava para a Wired como a Terra está para a infinitude do universo. E se na vastidão do universo há o perigo de aniquilação por ejeções de massa coronal, radiação cósmica e partículas carregadas, na Wired você podia acabar dando de cara com as paredes de fogo de algum sistema corporativo ou com as estranhas emanações chamadas de Espíritos da Rede.
Com os poucos créditos que recebera como pagamento, Finnegan financiou o restante dos estudos e colocou a sua mãe em um asilo virtual.
Os asilos virtuais eram galpões enormes, repletos de tanques de suporte de vida feitos de acrílico – do tamanho de caixões funerários – empilhados verticalmente e distribuídos em grandes fileiras horizontais, alugados a um preço módico por quem não tinha dinheiro para pagar os caríssimos e avançados tratamentos de reiniciação do DNA e de psico-reprogramação. Os pacientes, ligados a um sistema de canais interconectados, tinham contato entre si numa espécie de cidade virtual, apartamentados porém por programas de proteção e manutenção psicologica chamados de barreira do ego e eu-como-deveria-ter-sido-como-eu.
Sedada por barbitúricos e mergulhada em fluido amniótico, a mãe de Finnegan era monitorada vinte e quatro horas por dia e recebia nutrientes e psicoterapia por vias intravenosas e intraneuronais. Vivia num simulacro, mas ela adorava aquilo lá. Passeava o dia inteiro com o constructo do marido e, de vez em quando, recebia a visita do filho que, de qualquer parte do planeta, poderia ter acesso ao sítio do asilo na Netcy e, com a autorização do gerontologista responsável, ao simulacro habitado pela mãe.
Finnegan poderia ter conservado seu dinheiro, ter pago por um certificado de alfa-mais no mercado negro das Altas Coordenações e ter ido estagiar numa zaibatsu japonesa, trabalhando entre gente adulta de verdade de uma classe social superior, mas sua mãe estaria morando na rua.
A atitude da classe média ante o declínio de sua família, mesmo entre outros beta-menos, era de um certo desprezo. Era a queda. Finnegan procurou se conformar e ver o bem-estar da mãe como sua fortuna pessoal. E após a sua graduação como engenheiro beta-menos e de todas as recusas profissionais que havia recebido, ele não perdeu tempo e agarrou a primeira oportunidade de emprego que lhe apareceu.
Dois anos na Índia e a vida lhe dera uma nova rasteira. Perdera todas as suas economias após Chennai, a quarta maior cidade indiana, ter sido parcialmente devastada por uma série de tsunamis que arrasou a costa da maioria dos países banhados pelo Oceano Índico. Se ele não tivesse convertido a totalidade do seu chip de crédito em um maço gordo de rúpias escondido no colchão... Mas no submundo indiano, assim como no circuito fechado dos mercados negros globais, o que continuava mesmo a valer era o dinheiro vivo, o velho papel-moeda.
Para a sorte de Finnegan, quando tudo ocorreu, ele estava no Espaçoporto Satish Dhawan, em Sriharikota, a noventa quilômetros ao norte de Marina Beach, protegido das ondas de até trinta metros de altura pela barreira de cilindros ressonantes de Fudan. Estava de partida para uma escala de quatro meses no espaço, na Estação Espacial Internacional.
Um ano após o catastrófico maremoto, Chennai ainda recuperava o seu brilho efervescente e Finnegan, com muito esforço, novamente conseguira economizar algum dinheiro. Para poupar créditos, passara até a dormir nos esquifes mais baratos, naqueles dos chawls perto do porto, de onde se podia ver a linha de progradação de Marina Beach, ao sul do rio Kuvam com os seus bancos errantes de espuma plástica, como um enorme palco iluminado à noite pelos refletores da Santhome High Road.

Finnegan estava com vinte e seis anos e desde os vinte e três trabalhava para a Empresa Aeroespacial Indiana. Três anos era tempo mais do que suficiente para se receber uma promoção, Finnegan pensou enquanto atravessava o portão de desembarque do espaçoporto, voltando de mais uma escala na EEI. Mas ele nunca fora promovido.
Parado junto à janela panorâmica do saguão, lembrou-se da namora, a jovem Nita de dezessete anos, e da saudade que sentia enquanto estava longe dela; saudade esta que só deixava de ser sentida quando, enfim, a tinha em seus braços. Afora a motivação de cuidar da mãe, pensou Finnegan, Nita era a única pessoa em toda a Índia que parecia tornar suportável a sua permanência ali.
Tentou se comunicar com a namorada, mas ela não atendeu a ligação. Era cedo da manhã, ocorreu-lhe, e Nita que não era dada a madrugar. Com certeza ela ainda estava dormindo.
Olhou através da janela panorâmica e ficou momentaneamente ofuscado pelo clarão de um foguete russo alugado, carregado com equipamentos norte-americanos que iam para Marte. Um borrão avermelhado formou-se em sua visão, desaparecendo alguns minutos após a nave ter se distanciado e se tornado um ponto incandescente no espaço.
Ele não gostou de ser ofuscado, nem mesmo por um instante. No entanto, não tinha créditos suficientes para comprar a mais nova lente de contato da japonesa NEC e, por este motivo, tinha que se contentar com a sua Sensimed sem filtro luminoso.
— Quem diria. Os americanos estão no chão — enquanto se afastava da janela, Finnegan ouviu alguém usar o jargão aeroespacial numa conversa sobre os Estados Unidos estarem dependendo inteiramente dos seus parceiros russos, japoneses e europeus.
Estava amanhecendo e os cinco níveis do espaçoporto estavam lotados de pessoas e cargas. No nível superior, havia cientistas conceituados de vários países, magnatas industriais brasileiros e chineses, príncipes sauditas, uma estrela pop japonesa e um ex-primeiro-ministro inglês. Já nos quatro níveis inferiores, havia militares, alguns técnicos da Empresa Aeroespacial Indiana e de outras empresas e agências estrangeiras, sondas espaciais norte-americanas, satélites turcos, suprimentos para a clínica orbital russa, equipamentos para as bases internacionais de pesquisa na Lua e em Marte.
Os passageiros ilustres do nível superior voariam até a Estação Espacial Comercial, propriedade das empresas russas Orbital Technologies e RSC Energia. Também chamada de hotel espacial, a EEC era voltada para o turismo espacial, servindo como plataforma giratória de vôos. Uma parada curta na EEC, por exemplo, era perfeita para aqueles que podiam pagar por uma viagem ao redor da Lua e desejassem visitar a sua zona de exclusão aérea num vôo tangencial sobre os sítios históricos da era de ouro da exploração espacial. Já a equipe de técnicos nos níveis abaixo voaria para a Estação Espacial Internacional, mais voltada para laboratórios de pesquisa.
Ao sentir o cheiro da comida vindo do restaurante na ala norte do espaçoporto, Finnegan começou a sentir fome. No espaço, ele não sentia muita fome, pois na ausência de gravidade os aromas dos alimentos se dissipam antes mesmo de chegarem ao nariz. E quando não se consegue sentir o cheiro da comida, não se é possível saboreá-la plenamente.
Ele dirigiu-se até o restaurante, onde achou um lugar no balcão. Enquanto consultava o menu, os monitores do saguão noticiaram a manobra de elevação da Estação Espacial Comercial para evitar a colisão com um fragmento de lixo espacial e mais uma seqüência de testes bem-sucedidos no Stratolaunch Systems II e no Super Heavy Lift Rocket, das norte-americanas Virgin Galactic e SpaceX, concorrentes pesos-pesados do Tsien IV, da chinesa Tsung.
Finnegan não prestara atenção na reportagem, pois estava ocupado demais sentindo inveja de um engenheiro australiano da Tolley & McConnell, sentado três lugares a sua esquerda, de terno preto e com um chip de crédito corporativo tatuado nas costas da mão direita. O rapaz não devia ter mais do que a sua idade, Finnegan observou, e já era um empregado de certo nível. Um alfa-mais, certamente.
Finnegan, no entanto, continuava a vestir o seu velho macacão espacial, metido no qual mal podia afastar os braços do corpo no interior da estreita cabina da cápsula extraveicular Kudriavka. Um beta-menos coletor de lixo espacial. Ele começava a sentir-se um idiota.
Com um gesto, o australiano chamou a garçonete e pediu “brekkie” — uma gíria de seu país para café-da-manhã. Ela sorriu-lhe com langor e, cinco minutos depois, serviu-lhe um verdadeiro banquete matinal. Havia frutas tropicais, suco de cenoura com mexericas, café brasileiro, cottage, chapatti com manteiga ghee, idli, dosai, puris, yellow potatoes, gulab jamuns, chatni.
Finnegan, com o pouco que ganhava, pôde gastar apenas dez créditos numa xícara de chai e num chapatti sem acompanhamento.
Depois de comer, foi para casa. Estava exausto e, apesar da saudade, deixaria para ver Nita à noite, quando estivesse com as energias recobradas. Havia deixado-lhe uma mensagem carinhosa na sua caixa de recados, convidando-a para um jantar no Dhaba – um restaurante popular de beira-estrada, três quadras a oeste do porto. Ele sabia que ela estava ansiosa para revê-lo e que, sem falta, compareceria ao encontro. Ficou feliz por poder ter certeza disto.
FIM
domingo, 18 de dezembro de 2011
O Mnemante

Tinha o seu eyeclops na mão, mas não precisou usá-lo. Conhecia bem o percurso e, por isso, encontrou facilmente o caminho entre poças de água estagnada e emaranhados de cabos de fibra ótica suspensos.
Nunca se via ninguém no prédio, mas algumas vezes era possível ouvi-los; música através de uma porta fechada ou vozes distorcidas e passos apressados logo após a dobra no final de um corredor. Bob preferia assim; também não desejava encontrar seus vizinhos.
Fechou a porta atrás de si e entrou no cômodo estreito, cheirando a mofo, que era a pequena cabina radioprotetora de vidro plumbífero que ele próprio montara. Esperou a medição do obsoleto Polimaster, o aviso indicou níveis aceitáveis. Acendeu uma tira biofluorescente da Leah Buechley colada em uma das quatro paredes de plástico branco e argamassa baritada cobertas de fungo que compunham o loft e jogou a edição daquela manhã do Newssobre o sofá. Na primeira página, havia outros títulos: “3RS desenvolve nova tecnologia sinchip”, “Animais vivos para todos os gostos e bolsos, anuncia a Clonest Biotechnology”, e a grande manchete: “Mnemante ataca novamente”.
Contente por estar em casa, Bob baixou as persianas, tirou as frias roupas de borracha plúmbea com protetor de tireóide e caminhou descalço sobre o chão coberto por mosaicos brancos até o banheiro, onde tomou um demorado banho de vapor quente.
Vestiu um agasalho de tecido sintético semelhante ao algodão, calçou um par de chinelos plásticos que estavam encobertos sob uma pilha enorme de revistas velhas que havia desabado em cascata e apoltronou-se na grande cadeira ordinariamente estofada do console, olhando para o teto de placas corroídas. Retirou um copo plástico grande de coca-cola, um sanduíche morno e uma caixinha de batatas fritas do pacote de papel sobre o seu colo e começou a comer enquanto usava a mão livre para plugar-se ao deck da YDream.
Bob ligou o dispositivo e o teto desapareceu imediatamente, encoberto por uma supernova extremamente brilhante que projetava pontos de luzes variadas pelas paredes e pelo chão. Quando fechou os olhos, a estrela continuou a brilhar intensamente sob o fino véu das suas pálpebras, mas ela logo colapsou, tornando-se uma pulsar tão luminosa quanto uma galáxia. Ele sentia os pontos de luz moverem-se sobre o seu corpo, como as luzes de cidades acima ou abaixo dele. No entanto, ali não havia mais alto ou baixo e então a estrela continuou a colapsar, as luzes girando em uma velocidade que não podia ser medida. Era como se ele estivesse em algum lugar do espaço, numa bolha de vidro entre as estrelas que caiam em sua direção, atraídas para ele como uma chuva de meteoros. Bob havia se tornado uma singularidade no espaço-tempo, um buraco negro do qual as estrelas links não podiam escapar.
Isso tudo não durou mais que dois segundos e Bob já estava acostumado com a sensação vertiginosa do input na alucinação que era a Netcy; uma alucinação consensual, uma constelação infindável de dados, vivida diariamente por bilhões de pessoas – homens e mulheres, adultos e crianças – no mundo inteiro.
Bob enfiou na boca, de uma só vez, o último quarto do sanduíche e tomou um gole farto do refrigerante para não engasgar. Tinha pressa. Escolheu um link que orbitava acima da sua cabeça, acessou a sua conta no My Self e fez uma nova visita ao perfil de Mona Stephenson. Aquela era, talvez, a centésima vez que ele visitava o seu perfil. Ficara fascinado por ela desde a primeira vez que a vira, há duas semanas, na lista das “cem melhores memórias compartilhadas” eleitas pelos usuários da rede social no banco de dados da Memory Lane.
Deitado na poltrona reclinável, de olhos fechados na sala escura, Bob acessou o álbum de memórias que Mona disponibilizara na rede. Escolheu novamente o arquivo “momentos em família” e escorregou para dentro do mundo de Mona.
Um retângulo branco apareceu em sua visão, acinzentou-se e ficou tremido como se o operador de uma câmera a movimentasse. Levou alguns segundos para sincronizar o equilíbrio, pois Bob passara a enxergar através do ponto de vista da garota.

Era primavera sob os geodésicos e um schnauzer miniatura, com orelhas pontudas como as de um pinscher, apareceu brincando entre as pernas da Sra. Stephenson que ria ao mesmo tempo em que tentava entrar na cozinha com as sacolas de compras sem tropeçar no cãozinho. Mona também ria bastante vendo o cachorro mordiscar as pernas da calça da mãe. O YDream simulou a sensação e o receptor sensorial do sistema nervoso central de Bob processou o estímulo na forma de uma emoção crescente; era a alegria de Mona materializando-se dentro dele, o corpo todo dela tremendo, o peito balançando de tanto rir.
Mona olhou para a mãe que retribuiu o olhar com um sorriso amável. Bob imobilizou a imagem e deu umclose na Sra. Stephenson. Em seguida, apertou o controle e o filme recomeçou.
Houve um golpe de excitação. A Sra. Stephenson era uma mulher jovem e atraente. O seu corpo esguio metido em calças jeans justas e em uma camisa branca com lapela levantada, o peito alteando-se no decote quando ria e a pele branca contrastando com o cabelo escuro agitado pelo vento fez com que uma ereção se avolumasse sob as calças do agasalho de Bob. Mas o sacrílego abrasamento antinatural logo chocou-se em perpétuo conflito com a enormidade do respeito de Mona pela mãe e ele estremeceu, sentindo uma pitada de remorso. Suas mãos apertaram os braços da poltrona, os dedos meteram-se no enchimento e o close se desfez.
— Huan, seu malvado! Você vai apanhar! —, gritava Mona. — Huan! —, e Bob viu-se correndo atrás do cachorro, sem conseguir alcançá-lo, pois os pezinhos minúsculos da menina não podiam de jeito nenhum competir com as patas ágeis do cãozinho que pinoteava e desviava o corpo, forçando Mona a dar voltas à toa com os bracinhos roliços estendidos, golpeando o ar.
— Huan — estrilava Mona com o máximo de voz que lhe permitiam os sete anos de idade —, fica quieto! — e se sacudia toda, quase sem fôlego, de tanto que ria.
Quando Mona finalmente conseguiu agarrar o cachorro, Bob sentiu os oito quilos do animal pesarem em seus braços. Sentiu também a maciez de sua pelagem prateada de tosa curta e uniforme, ressaltando a densa barba e as grossas sobrancelhas.
De repente, um corte para uma tomada mal iluminada. A imagem estremeceu, desfocou e ficou nítida subitamente. Bob estava em uma festa de aniversário batendo palmas de forma ritmada. As pessoas cantavam parabéns. Willy Stephenson, de onze anos, irmão de Mona, estava sentado do outro lado da mesa, com o bolo à sua frente. As chamas bruxuleantes refletiam-se em seus óculos, até que ele soprou as velas e tudo escureceu. O Sr. Stephenson apareceu atrás dele, acendendo as luzes. A Sra. Stephenson surgiu ao seu lado, tão bela quanto em sua primeira aparição, segurando uma caixa grande com laço.
Mona olhou em volta, revelando uma dúzia de meninos e meninas da escola de Willy e alguns parentes e amigos da família.
Willy abriu o presente e em seguida cortou o bolo com o auxílio da mãe, oferecendo-lhe o primeiro pedaço.
Agora Mona também comia uma fatia e Bob sentiu o sabor doce do chocolate confundir-se na boca com o salgado, das fritas. O bolo estava delicioso; uma saborosa distorção, a mais doce confabulação de uma experiência imaginada gerando um simulacro de bem-estar e felicidade. Ele nunca assimilara uma informação igual, tão próxima do que se poderia chamar de realidade; uma memória tão docemente falsa implantada em sua mente, processada no hipocampo, armazenada pelo lobo frontal, manifestando-se como uma lembrança pueril remontada a partir das memórias e impressões sensoriais dispersas no cérebro de Mona.
Novamente um close na Sra. Stephenson. Ela ria e mexia o cabelo. E agora Bob também ria, um riso puro e infantil, e mexia o cabelo com o bracinho roliço de Mona, imitando a elegância dos movimentos da mãe. Ele sentia-se imbuído de admiração. Quanta felicidade, quanto amor havia naquelas memórias. Eram maravilhosas. Gostaria que as suas próprias fossem assim.
Lembrou-se das belas recordações de Debbie Dainard e Lily Owens, dos seus momentos em família. Lamentou o resultado que dera às suas últimas lembranças, sem nenhuma sensação de paz ou clímax.
Bem. Precisava superar isso. E com Mona seria diferente. Havia adquirido experiência e não cometeria os mesmos erros."
FIM
domingo, 8 de agosto de 2010
Não verás país nenhum
Não verás país nenhum (1981), escrito pelo jornalista e compositor literário Ignácio de Loyola Brandão (*31/07/1936), é um alerta bastante sério do que nos espera no futuro.O romance, considerado o mais pessimista e devastador da literatura brasileira, conta, em seu enredo apocalíptico, a história terrível de um mundo a frente do atual, num futuro indeterminado no qual a humanidade vive com a herança do desastre ambiental deixado pela sociedade moderna. A Amazônia foi transformada em um deserto sem árvores, a poluição dos aquíferos tornou a água imprópria para o consumo, o lixo se acumula nas cidades em imensas colinas habitadas pela parcela miserável da população e, no interior, bolsões de ar quente fulminante matam pessoas e animais.
Na ficção, a educação ambiental poderia ter salvo o país desse grande desastre ecológico — isto, é claro, se houvesse interesse da classe política. Mas, ironica e semelhantemente à "vida real", a administração do Brasil de Não verás país nenhum está nas mãos de governantes medíocres, interessados apenas em vantagens pessoais.
Em linhas gerais, o livro é um espantoso prognóstico de um futuro desastroso, no qual a falta de políticas de preservação ambiental e o desenfreado desenvolvimento tecnológico-industrial acabam tornando martirizantes as condições de vida no planeta.
Loyola localiza o enredo na Grande São Paulo que, no futuro, torna-se uma cidade ainda mais subdividida em castas. Segundo ordens do Esquema — sistema governamental em vigor —, cada cidadão deve circular apenas em determinadas áreas da metrópole superpovoada já que não há lugar para todos. Mas tudo não passa de um plano macabro de segregação. Ao governo incompetente, resta o que, para ele, é a solução mais prática e imediata ao problema do superpovoamento: abandonar a população a esmo, condenando-a à fome e à morte numa espécie de seleção natural diabólica. O pano de fundo do enredo não é muito diferente do expediente comum do subgênero Distopia, de modo que o leitor não tardará em identificar uma atmosfera similar aos clássicos Nós (1921), de Zamiatin, Admirável mundo novo (1932), de Aldous huxley, e 1984 (1949), de George Orwell. Porém, diferentemente destes, o Esquema de Loyola não consegue domar completamente o individualismo nem tampouco manter a ordem. Não apenas a subversão é inevitável, como nasce do grande número de excluídos do Esquema. No entanto, a incompetência do Esquema em estabelecer a ordem não impede que os castigos conferidos aos seus cidadãos sejam menos cruéis do que as torturas a que Winston Smith é submetido em 1984.
É neste contexto que Souza, o protagonista da trama, cidadão pacato, casado, ex-professor de história e agora burocrata, gradativamente se desvia de sua rotina e torna-se um subversivo. Ele carrega o enredo contando, por meio de relatos cotidianos, as dificuldades e as situações que enfrenta no seu convívio social.
Situações como, por exemplo, no bar de baixa circulação que Souza costuma frequentar já que a vida social lhe é sufocante. Lá, ao pedir um copo de água gelada para aplacar o calor insuportável, ouve do dono do bar que água é um artigo de luxo difícil de ser encontrado. Diante do absurdo, resta a Souza se conformar e matar a sede (que não é pouca) com um certo líquido, substituto da água, produzido industrialmente para fins de consumo: urina reciclada.Fora do bar, Souza enfrenta diversos outros problemas como a necessidade de autorizações especiais para circular (a pé ou de lotação) já que sua credencial de funcionário público não lhe permite deslocar-se por toda a cidade.
Sua crescente insatisfação com o sistema é representada por um furo que aparece misteriosamente em sua mão e que aumenta de tamanho de forma proporcional ao desenvolvimento de sua autoconsciência. Souza, a medida que se rebela contra o sistema, perde sua confortável condição de burguês, a esposa o abandona e uma sucessão de eventos o torna um excluído; primeiramente do seio familiar e, em seguida, do seio da sociedade.
Negado-lhe o direito de ir e vir, impossibilitado de exercer sua individualidade e de se expressar livremente — o próprio personagem explica: "o fiscal pode ser o homem à sua frente, ao lado. Em qualquer parte" (p.41) —, Souza passa a sofrer uma crise existencial. Para ele, o tempo parece não mais existir e resta-lhe refletir sobre sua condição; única saída do absurdo que sua vida se tornou. Mas, resistir é inútil! Toda e qualquer tentativa, desde sua concepção em pensamento, é um combate já perdido. Primeiramente porque a arma mestra do Esquema é a alienação. Ou seja, a verdade é esta em que se vive, sem possibilidades de questionamento: "Convivi com a distorção, aceitei-a como realidade. Também já perdemos o conceito de real." (p. 217)
Segundo porque o Esquema prega a idéia de imutabilidade da história por meio da desmemorização coletiva, de modo que o cidadão não tem mais referenciais de comparação: "Julgamento da história? Aqueles homens pretenderam eliminar a história, tentando apagar o futuro." (p. 104)
E o que o futuro reserva para Souza? absolutamente nada! Abandonado por sua própria classe, resta-lhe a convivência com os demais excluídos cuja humanidade não é mais do que uma lembrança distante em seus corpos disformes, assim como o furo em sua própria mão.
No entanto, ainda há esperança. A mudança é sugerida no enredo como uma flor que brota milagrosamente no calor causticante do deserto. Em outras palavras, a esperança reside na patética resistência de jovens como o sobrinho de Souza, aparentemente combativo ao sistema mas tão dogmático quanto aqueles que diz combater, e na estranha e jovem universitária Elisa, a qual torna-se amante de Souza e lhe combate a destrado, apesar dela mesma ser incapaz de ter plena consciência de sua própria situação.
O romance é um verdadeiro sucesso editorial. O livro — que já atingiu a vigésima terceira edição desde sua publicação no Brasil, em 1981 — é a concretização do sonho de Loyola que, desde pequeno, sonhava conquistar o mundo com sua literatura.Não verás país nenhum foi publicado em vários países e traduzido para diversos idiomas, tendo, inclusive, recebido o Prêmio Illa de Melhor Livro Latino-americano publicado na Itália em 1983.
O sucesso da reedição de Não verás país nenhum deve-se, em grande parte, à atualidade de alguns de seus temas. Conforme Fausto Cunha, "o escritor de FC inteligente sabe de duas coisas: escreve para o leitor de seu tempo, que possui problemática própria; e escreve sabendo que seu futuro e seus mundos imaginários são meras extrapolações acessíveis ao homem de hoje" (in "Ascensão e queda da ficção científica", Revista Civilização Brasileira n. 13, maio de 1967). Neste sentido, Não verás país nenhum não foge à regra.
Embora suas previsões não sejam completamente realistas, sendo por vezes ingênuas e fantasiosas, elas conseguem, por meio da extrapolação, expor claremente a idéia de catástrofe iminente e conferir um estatuto de tensão inevitável; características muito apreciadas em obras do gênero.
Outras obras brasileiras, contemporâneas de Não verás país nenhum, também apresentam tal estrutura (a descrição de um regime totalitário e a luta de um homem por sua liberdade e humanidade) e, inevitalmente, ganham uma leitura alegórica quando observada em seu contexto. Zero (1975), também de Loyola Brandão, O fruto do vosso ventre (1976), de Herberto Sales, Os pecados da tribo (1976) e Aquele mundo de Vasabarros (1982), de José J. Veiga, entre outros, são romances interpretados como alegorias do regime militar da época de suas publicações.
A título de curiosidade... o título da obra é uma sátira cruel à poesia A Pátria, de Olavo Bilac, que, durante décadas, foi recitado e decorado nas escolas pelas crianças brasileiras: "Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste! Criança! Não verás nenhum país como este!". A adoção do verso bilaqueano com seu significado virado ao avesso é uma mostra do ponto de vista crítico e carregado de ironia, de Loyola, em oposição ao róseo otimismo, do poeta.
Link direto: http://www.globaleditora.com.br/Loader.aspx?ucontrol=bWVudUhvbWUsZmljaGFMaXZybw==&livroID=3619
BIBLIOGRAFIA:
Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão. São Paulo: Global Editora, 2007, 414p.
Nós (Mi), de Evgueny Zamiatin. São Paulo: alfa-omega, 2004, 212p.
Admirável mundo novo (Brave new world), de Aldous Huxley. São Paulo: Globo, 2005, 318p.
1984 (Nineteen Eighty-Four), de George Orwell. São Paulo: Cia Editora Nacional, 2004, 301p.
Zero (1975), de Ignácio de Loyola Brandão. São Paulo: Global Editora, 312p.
O fruto do vosso ventre (1976), de Herberto Sales.
Os pecados da tribo (1976), de José J. Veiga. São Paulo: Bertrand Brasil, 2005, 142p.
Aquele mundo de Vasabarros (1982), de José J. Veiga. São Paulo: Bertrand Brasil, 1997, 208p.
sábado, 3 de julho de 2010
Nós

Obra máxima do engenheiro naval russo Evgueny Zamiatin, Nós é um romance antecipatório. Escrito em 1920-21, o livro provocou uma perseguição encarniçada ao escritor na época em que tentou publicá-lo. Zamiatin foi atacado pela censura do partido comunista que, além de proibir a publicação de Nós, baniu todos os seus trabalhos das livrarias. Ele acabou exilado na França, onde faleceu em 1937, aos 53 anos de idade, sem jamais ter visto o seu livro ser publicado em sua Terra-pátria.

Na Rússia, devido à censura imperante no país, Nós circulou ilegalmente durante anos em forma manuscrita. Sua primeira publicação foi em 1924, na Inglaterra. O livro só adentrou legalmente a pátria-mãe do autor em 1988 com o declínio do regime soviético.
Em Nós, Zamiatin — de forma irônica e surreal, fazendo uso de uma linguagem contida e propositalmente disciplinada — profetiza a desumanização e a automatização dos pensamentos, a banalização e repressão das emoções e o extermínio dos que estão em desacordo com a ordem imposta e lutam para manter vivas imaginação e originalidade.
No universo de Nós, as personagens têm hora marcada para empreenderem esforços de procriação, em contatos extremamente impessoais. Os prédios são totalmente de vidro transparente nos quais os moradores são vigiados a todo momento; com excessão dos encontros íntimos, durante os quais é permitido fechar as cortinas por tempo programado.
A história do livro, narrada pela personagem principal D-503 — as pessoas não recebem nomes, mas números —, consiste em uma revolução sendo armada e deflagrada. O cotidiano de D-503 e de seus amigos I-330, U e O-90, assim como as causas da revolução, emergem na narrativa de forma fluida. A personagem principal descobre-se, a certa altura, doente e sua doença consiste no nascimento de uma alma.
O governo — o Estado Unificado, como o denominam — sob o comando do Benfeitor, regente supremo da nação, descobre uma maneira de curar essa doença, em princípio tida como incurável: a extirpação da imaginação. A mutilação constituindo-se em uma cura para o males da humanidade e da individualidade.
As personagens que à primeira vista são lógicas e impessoais, talvez pela forma como se relacionam, na verdade constituem-se em ricas combinações de sentimentos humanos. D-503 é um engenheiro que não resiste aos seus mais profundos anseios e escreve a estória à qual nos referimos. O-90 é doce e meiga. E a sedutora e subversiva I-330 é o estopim para a detonação da alma de D-503.
O final é pessimista e quase folhetinesco, mas clássico. Só posso dizer isso! Não posso contar mais, senão perde a graça. Rsrsrs ;)
A história de Nós é baseada nas experiências do autor com as revoluções russas de 1905 e 1917 e no período em que trabalhou, em 1916, supervisionando a construção de navios na Inglaterra. O livro é uma sátira futurista distópica, geralmente considerada o berço do subgênero. Mas há outros como A nova utopia (1891), de Jerome K. Jerome, e O tacão de ferro (1900), de Jack London.É importante salientar que o referido Jerome K. Jerome tenha, muito provavelmente, exercido alguma influência no romance de Zamiatin. Em 1891, Jerome havia publicado o conto/ensaio A nova utopia que descrevia uma cidade — quiçá um mundo — abarcada por um pesadelo igualitarista onde os habitantes eram quase indistintos em seus uniformes cinza (similar as unifas, de Nós) e todos tinham cabelos pretos e curtos, naturais ou tingidos. Ninguém recebia nomes, apenas números costurados nas túnicas: pares para as mulheres, ímpares para os homens — o mesmo esquema da obra russa. A igualdade era levada tão ao extremo que pessoas com o físico bem-desenvolvido sofriam cirurgias para redução de membros — em Zamiatin, a cirurgia de nivelamento de nariz é sugerida.
Na obra de Jerome, aqueles com uma imaginação superativa eram submetidos a uma cirurgia que a reduzia — uma operação semelhante tem importância central em Nós. Ainda mais significativa é a apreciação, da parte de ambos os autores, pelo amor familiar e, por extensão, do individual como uma força disruptiva e humanizante.
É provável que o autor russo o tenha lido. A obra de Jerome teve três edições publicadas na Rússia antes de 1917, sendo estas muito conhecidas pela maioria das pessoas instruídas da época.
Quanto as influências de Zamiatin no trabalho mais conhecido do subgênero, 1984, de George Orwell — que começou a escrevê-lo alguns meses após ter lido uma tradução francesa de Nós e ter escrito uma resenha sobre a obra —, há registros de Orwell ter dito que iria tomá-la como modelo para o seu próximo romance. Eu não duvido disso! Pois, salta aos olhos que a estrutura narrativa dos dois livros é muito semelhante, o que dá realmente margem às acusações de plágio. A inspiração de Orwell é, no mínimo, inegável. Pois ambos tratam ,em suas narrativas, de uma incursão pela mente de um cidadão de um futuro distópico, habitante de uma sociedade controlada por um regime totalitário que começa a questionar sua realidade a partir da paixão por uma bela e jovem subversiva.
Em ambos os livros, o texto é assombrado pela presença opressiva de um líder onisciente e paternalista: o Benfeitor, em Nós, e o Grande Irmão, em 1984. O grande mérito de Zamiatin foi o fato (pois é fato) dele ter sido um visionário já que escreveu seu grandioso livro enquanto os regimes totalitários que tomaram conta da Europa e de boa parte do mundo nos anos 30 ainda se encontravam em fase embrionária, latente. Ele parece ter captado o perigo por trás da ideia de que o Todo deveria se sobrepor às partes, ou seja, o bem comum esmagando a liberdade individual.
Já quanto a influência de Nós sobre o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, o próprio Huxley explicou em uma carta, escrita por ele em 1962, que sua obra fora escrita muito antes dele ter ouvido falar da obra russa. Uhm... Desconfio. ¬¬
Seja como for, não creio que estes fatos tirem de Orwell e Huxley o brilhantismo e, sobretudo, a importância de suas obras. Contudo, é importante que a obra de Zamiatin seja melhor difundida, para que a justiça histórica seja feita. ;)
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BIBLIOGRAFIA:
Nós (Mi), de Evgueny Zamiatin. São Paulo: alfa-omega, 2004, 212p.
Admirável mundo novo (Brave new world), de Aldous Huxley. São Paulo: Globo, 2005, 318p.
1984 (Nineteen Eighty-Four), de George Orwell. São Paulo: Cia Editora Nacional, 2004, 301p.