domingo, 18 de março de 2012

Finnegan

Disponibilizo aqui mais um capítulo do livro O Terceiro Homem ainda em processo de escrita. Inicialmente, o enredo do livro teria apenas um núcleo narrativo no qual Finnegan seria a personagem principal. Com o passar do tempo e a cada capítulo escrito, outras personagens foram ganhando força e por isso o autor resolveu dividir o enredo em quatro núcleos: Finnegan, o Mnemante, o Agente e Sofia Lamborn. Este capítulo (assim como o capítulo postado anteriormente: O Mnemante) é o primeiro do seu respectivo núcleo.


Por favor, leiam e comentem:


***

FINNEGAN


Mesmo para um engenheiro de sistemas beta-menos, trabalhar para uma companhia indiana de coleta de lixo espacial era um túmulo no qual Finnegan podia enterrar todos os seus anos de estudo na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Ganharia alguns trocados e mais tarde sairia desta vida tão pobre quanto estava quando havia entrado nela.

Filho da classe média, de pai burocrata, tinha tudo para ser um aluno com excelente rendimento e um engenheiro reconhecido como alfa-mais pela Alta Coordenação.

Mas a vida lhe pregara uma de suas peças e ele acabou seguindo por um caminho muito diferente daquele que o destino costuma traçar para um jovem média ingresso num curso de engenharia.

Quando o pai de Finnegan ficara doente do coração, ele quase teve que deixar a universidade, pois grande parte dos recursos financeiros da família fora usada para pagar as muitas despesas médicas. Um coração clonado custava caro e para equilibrar o orçamento doméstico, manter o orgulho da classe e a possibilidade de ascensão do filho, sua mãe tivera que se desfazer de uma quantidade substancial do acanhado patrimônio familiar.

Os recursos financeiros escassearam e o pai de Finnegan fora obrigado a trocar o hospital por um substituto mais barato: uma clínica chinesa clandestina no Bairro da Liberdade. O tipo de lugar onde não se precisava marcar hora para cirurgia. Era só entrar, e eles já abriam o peito do paciente e tacavam-lhe o coração de um doador involuntário de algum lugar da Ásia Meridional. E depois de dois dias internado em regime de isolamento numa bolha de plástico alugada, despachavam-no para casa, onde continuaria o tratamento com medicamentos imunossupressores.

Quando o pai de Finnegan morreu, deixando a família na bancarrota, sua mãe fora acometida por uma mudança repentina. Parecia ter perdido a fibra e, durante horas a fio, ficava sentada no sofá com os olhos fora de foco, caída no marasmo natural de quem se conecta à Netcy e se enterra aos poucos em uma dúzia de novelas e outras enrolações sintéticas. Algumas vezes, quando saia do seu estado de torpor, ou tentava suicídio ou ficava a conversar com o fantasma do marido.

O jovem Finnegan, que na metade da sua graduação não estava nem um pouco equipado para ganhar dinheiro ou lidar com a situação, tivera que encarar o duro mercado de trabalho que não oferecia muitas oportunidades para um rapaz ainda sem diploma superior. Por acaso, conseguira um trabalho de meio período como folksonomista freelance para a Lexer Brasil.

O negócio era aparentemente simples. Finnegan tinha que obter e classificar informações de uma nuvem de dados da Wired. Em seguida, ele fazia o upload dessas informações para o banco de dados da Lexer Brasil. Daí, se as informações fossem úteis e utilizáveis, Finnegan recebia o pagamento.

A Wired não era um domínio seguro e conhecido como a Netcy. Em outras palavras, a Netcy estava para a Wired como a Terra está para a infinitude do universo. E se na vastidão do universo há o perigo de aniquilação por ejeções de massa coronal, radiação cósmica e partículas carregadas, na Wired você podia acabar dando de cara com as paredes de fogo de algum sistema corporativo ou com as estranhas emanações chamadas de Espíritos da Rede.

Com os poucos créditos que recebera como pagamento, Finnegan financiou o restante dos estudos e colocou a sua mãe em um asilo virtual.

Os asilos virtuais eram galpões enormes, repletos de tanques de suporte de vida feitos de acrílico – do tamanho de caixões funerários – empilhados verticalmente e distribuídos em grandes fileiras horizontais, alugados a um preço módico por quem não tinha dinheiro para pagar os caríssimos e avançados tratamentos de reiniciação do DNA e de psico-reprogramação. Os pacientes, ligados a um sistema de canais interconectados, tinham contato entre si numa espécie de cidade virtual, apartamentados porém por programas de proteção e manutenção psicologica chamados de barreira do ego e eu-como-deveria-ter-sido-como-eu.

Sedada por barbitúricos e mergulhada em fluido amniótico, a mãe de Finnegan era monitorada vinte e quatro horas por dia e recebia nutrientes e psicoterapia por vias intravenosas e intraneuronais. Vivia num simulacro, mas ela adorava aquilo lá. Passeava o dia inteiro com o constructo do marido e, de vez em quando, recebia a visita do filho que, de qualquer parte do planeta, poderia ter acesso ao sítio do asilo na Netcy e, com a autorização do gerontologista responsável, ao simulacro habitado pela mãe.

Finnegan poderia ter conservado seu dinheiro, ter pago por um certificado de alfa-mais no mercado negro das Altas Coordenações e ter ido estagiar numa zaibatsu japonesa, trabalhando entre gente adulta de verdade de uma classe social superior, mas sua mãe estaria morando na rua.

A atitude da classe média ante o declínio de sua família, mesmo entre outros beta-menos, era de um certo desprezo. Era a queda. Finnegan procurou se conformar e ver o bem-estar da mãe como sua fortuna pessoal. E após a sua graduação como engenheiro beta-menos e de todas as recusas profissionais que havia recebido, ele não perdeu tempo e agarrou a primeira oportunidade de emprego que lhe apareceu.



Dois anos na Índia e a vida lhe dera uma nova rasteira. Perdera todas as suas economias após Chennai, a quarta maior cidade indiana, ter sido parcialmente devastada por uma série de tsunamis que arrasou a costa da maioria dos países banhados pelo Oceano Índico. Se ele não tivesse convertido a totalidade do seu chip de crédito em um maço gordo de rúpias escondido no colchão... Mas no submundo indiano, assim como no circuito fechado dos mercados negros globais, o que continuava mesmo a valer era o dinheiro vivo, o velho papel-moeda.

Para a sorte de Finnegan, quando tudo ocorreu, ele estava no Espaçoporto Satish Dhawan, em Sriharikota, a noventa quilômetros ao norte de Marina Beach, protegido das ondas de até trinta metros de altura pela barreira de cilindros ressonantes de Fudan. Estava de partida para uma escala de quatro meses no espaço, na Estação Espacial Internacional.

Um ano após o catastrófico maremoto, Chennai ainda recuperava o seu brilho efervescente e Finnegan, com muito esforço, novamente conseguira economizar algum dinheiro. Para poupar créditos, passara até a dormir nos esquifes mais baratos, naqueles dos chawls perto do porto, de onde se podia ver a linha de progradação de Marina Beach, ao sul do rio Kuvam com os seus bancos errantes de espuma plástica, como um enorme palco iluminado à noite pelos refletores da Santhome High Road.

Finnegan estava com vinte e seis anos e desde os vinte e três trabalhava para a Empresa Aeroespacial Indiana. Três anos era tempo mais do que suficiente para se receber uma promoção, Finnegan pensou enquanto atravessava o portão de desembarque do espaçoporto, voltando de mais uma escala na EEI. Mas ele nunca fora promovido.

Parado junto à janela panorâmica do saguão, lembrou-se da namora, a jovem Nita de dezessete anos, e da saudade que sentia enquanto estava longe dela; saudade esta que só deixava de ser sentida quando, enfim, a tinha em seus braços. Afora a motivação de cuidar da mãe, pensou Finnegan, Nita era a única pessoa em toda a Índia que parecia tornar suportável a sua permanência ali.

Tentou se comunicar com a namorada, mas ela não atendeu a ligação. Era cedo da manhã, ocorreu-lhe, e Nita que não era dada a madrugar. Com certeza ela ainda estava dormindo.

Olhou através da janela panorâmica e ficou momentaneamente ofuscado pelo clarão de um foguete russo alugado, carregado com equipamentos norte-americanos que iam para Marte. Um borrão avermelhado formou-se em sua visão, desaparecendo alguns minutos após a nave ter se distanciado e se tornado um ponto incandescente no espaço.

Ele não gostou de ser ofuscado, nem mesmo por um instante. No entanto, não tinha créditos suficientes para comprar a mais nova lente de contato da japonesa NEC e, por este motivo, tinha que se contentar com a sua Sensimed sem filtro luminoso.

— Quem diria. Os americanos estão no chão — enquanto se afastava da janela, Finnegan ouviu alguém usar o jargão aeroespacial numa conversa sobre os Estados Unidos estarem dependendo inteiramente dos seus parceiros russos, japoneses e europeus.

Estava amanhecendo e os cinco níveis do espaçoporto estavam lotados de pessoas e cargas. No nível superior, havia cientistas conceituados de vários países, magnatas industriais brasileiros e chineses, príncipes sauditas, uma estrela pop japonesa e um ex-primeiro-ministro inglês. Já nos quatro níveis inferiores, havia militares, alguns técnicos da Empresa Aeroespacial Indiana e de outras empresas e agências estrangeiras, sondas espaciais norte-americanas, satélites turcos, suprimentos para a clínica orbital russa, equipamentos para as bases internacionais de pesquisa na Lua e em Marte.

Os passageiros ilustres do nível superior voariam até a Estação Espacial Comercial, propriedade das empresas russas Orbital Technologies e RSC Energia. Também chamada de hotel espacial, a EEC era voltada para o turismo espacial, servindo como plataforma giratória de vôos. Uma parada curta na EEC, por exemplo, era perfeita para aqueles que podiam pagar por uma viagem ao redor da Lua e desejassem visitar a sua zona de exclusão aérea num vôo tangencial sobre os sítios históricos da era de ouro da exploração espacial. Já a equipe de técnicos nos níveis abaixo voaria para a Estação Espacial Internacional, mais voltada para laboratórios de pesquisa.

Ao sentir o cheiro da comida vindo do restaurante na ala norte do espaçoporto, Finnegan começou a sentir fome. No espaço, ele não sentia muita fome, pois na ausência de gravidade os aromas dos alimentos se dissipam antes mesmo de chegarem ao nariz. E quando não se consegue sentir o cheiro da comida, não se é possível saboreá-la plenamente.

Ele dirigiu-se até o restaurante, onde achou um lugar no balcão. Enquanto consultava o menu, os monitores do saguão noticiaram a manobra de elevação da Estação Espacial Comercial para evitar a colisão com um fragmento de lixo espacial e mais uma seqüência de testes bem-sucedidos no Stratolaunch Systems II e no Super Heavy Lift Rocket, das norte-americanas Virgin Galactic e SpaceX, concorrentes pesos-pesados do Tsien IV, da chinesa Tsung.

Finnegan não prestara atenção na reportagem, pois estava ocupado demais sentindo inveja de um engenheiro australiano da Tolley & McConnell, sentado três lugares a sua esquerda, de terno preto e com um chip de crédito corporativo tatuado nas costas da mão direita. O rapaz não devia ter mais do que a sua idade, Finnegan observou, e já era um empregado de certo nível. Um alfa-mais, certamente.

Finnegan, no entanto, continuava a vestir o seu velho macacão espacial, metido no qual mal podia afastar os braços do corpo no interior da estreita cabina da cápsula extraveicular Kudriavka. Um beta-menos coletor de lixo espacial. Ele começava a sentir-se um idiota.

Com um gesto, o australiano chamou a garçonete e pediu “brekkie” — uma gíria de seu país para café-da-manhã. Ela sorriu-lhe com langor e, cinco minutos depois, serviu-lhe um verdadeiro banquete matinal. Havia frutas tropicais, suco de cenoura com mexericas, café brasileiro, cottage, chapatti com manteiga ghee, idli, dosai, puris, yellow potatoes, gulab jamuns, chatni.

Finnegan, com o pouco que ganhava, pôde gastar apenas dez créditos numa xícara de chai e num chapatti sem acompanhamento.

Depois de comer, foi para casa. Estava exausto e, apesar da saudade, deixaria para ver Nita à noite, quando estivesse com as energias recobradas. Havia deixado-lhe uma mensagem carinhosa na sua caixa de recados, convidando-a para um jantar no Dhaba – um restaurante popular de beira-estrada, três quadras a oeste do porto. Ele sabia que ela estava ansiosa para revê-lo e que, sem falta, compareceria ao encontro. Ficou feliz por poder ter certeza disto.


FIM