sábado, 6 de outubro de 2012

canção de Pipa


Passados alguns meses desde a última postagem, publico agora mais um capítulo do meu livro .

Por favor, leiam e comentem:



***


CANÇÃO DE PIPA


Era um sonho feliz.

Passageiros do vôo 2083 para Natal — anunciou o sistema de auto-falantes. — Queiram se dirigir ao Portão 34 para embarque...

Era o seu vôo, confirmara em seu neurolink e no gigantesco monitor que exibia os horários.

Estava feliz, a mulher ao seu lado, a mão dela apertando a sua.

Ao lado dela, uma criança sorridente esticava a cabeça, fascinada com os hologramas de golfinhos brincalhões saltitando próximo à praia. A garotinha de cinco anos estava ansiosa, veria animais de verdade pela primeira vez.

— Vamos — a voz carinhosa do pai rompeu-lhe o devaneio. — É o nosso vôo, bonequinha — e dirigiu-se com a família para o portão de embarque.

Ouviu o bip distante e estridente de um alarme em algum lugar do aeroporto, o barulho de pés apressados. Alguém estava atrasado, ele pensou.

Depois, pessoas gritaram às suas costas, correndo em todas as direções.

As sinapses trovejaram em seu cérebro. Ele tentou acelerar, mas era tarde demais. Antes mesmo que pudesse se virar, fora atingido por uma poderosa trovoada que o arremessou a dez metros de distância.

Caíra no chão, desorientado, sentindo o sangue ebulir nas veias, injetado com uma dose altíssima de adrenalina.

Tentou erguer o corpo, apoiando-se nos braços, mas o membro esquerdo fora arrancado na altura da omoplata e substituído por um esguicho escuro, intermitente. Cambaleou, os pés escorregaram e ele ficou ali, caído, mergulhado na poça vermelha que se formava sob si, com a consciência se esvaindo a cada mililitro de sangue derramado.

A última coisa que viu, antes de ter a cabeça despedaçada por um disparo, foi a mulher e a criança, em meio a uma selva de pernas no saguão do aeroporto de São Paulo, serem lancinadas por meia dúzia de trovoadas poderosas.

* * *

César despertou na semi-escuridão, como sempre acontecia, e o cheiro de sangue dissipou-se no calor da noite.

Sentou-se, girando as pernas para fora da cama. O corpo bronzeado estava molhado de suor e os lençóis, úmidos. Fitou o braço esquerdo por alguns instantes, abrindo e fechando a mão repetidamente como se a estivesse exercitando, sentindo os tendões trabalharem, ora contraídos, ora relaxados, sob a pele do antebraço.

Um mosquito chupava-lhe o sangue próximo ao pulso, sem se intimidar com os seus movimentos. Com um golpe rápido, reduziu o inseto a um pequeno borrão vermelho na palma da mão direita.

Olhou para a escrivaninha, para o relógio antiquado com pulseira de couro sintético escuro ao lado de uma garrafa de Melt vazia, marcando quinze para as duas. Faltava pouco mais de uma hora para a faina.

Nu, com a cabeça doendo, ficou em pé e caminhou até a janela de venezianas. Uma brisa agradável foi soprada em seu rosto por entre as ripas de madeira de lei enquanto perscrutava a espuma plástica esbranquiçada das ondas, iluminada pelo luar, varrer a praia abaixo da encosta.

Olhou o horizonte. Céu e mar uniam-se ao longe, sem traço de separação, com uma névoa diluindo-se à distância. A lua em quarto crescente estava parcialmente encoberta pelas nuvens e o ar parecia condensar-se numa treva desolada que pesava, imóvel, sobre a vastidão do oceano.

Ele se voltou para o quarto, para as paredes de estuque branco do que um dia fora o hotel Sombra e Água Fresca. A areia havia cedido, provocando o desmoronamento da porção norte do hotel. Lá, as paredes e o telhado haviam desaparecido, mas parte da estrutura ainda estava dependurada: grandes blocos de concreto e alvenaria presos a tendões de aço enferrujados e retorcidos.

Vestiu uma bermuda cáqui gasta e uma camiseta branca, calçou um par de chinelos de borracha e saiu, envolvendo o pulso esquerdo com o relógio. Precisava de uma bebida.

Pouco passava das duas e as ruas marginais de Pipa estavam calmas e silenciosas. O único lugar movimentado e barulhento era a avenida principal, repleta de luzes, restaurantes, bares, boates e pessoas.

Na Cahill’s, um feixe de laser verde queimava o espaço, ora concentrado em puras linhas geométricas, ora espalhado em um milhão de minúsculas partículas, dardejando a cara da multidão que se remexia sobre o chão de paralelepípedos, hipnotizada pelo som das poderosas batidas eletrônicas do hallucinated speed.

César se afastou do centro delirante da massa e abriu caminho pela periferia até a porta do Oz, onde dois geeks alcoolizados tentavam impressionar duas garotas que eles não sabiam ser de programa.

— Cada tipo de modelo quântico é tão estranho quanto o quadro de Dalí. — César ouviu um deles dizer. — Afinal, porque uma partícula tão pequena também não poderia dar a luz a um cavalo cego mordendo um telefone?

O outro geek bêbado concordou com a cabeça e as duas putas deram risadinhas.

César se afastou do quarteto e achou um lugar no balcão ao lado de um australiano acompanhado de algumas mulheres muito velhas, vestidas de modo a provocar luxúria. Numa época de beleza e juventude ao alcance do bolso, feiúra e velhice haviam se tornado uma espécie de fetiche naturalista.

Uma das velhas fez soar uma risadinha histérica que se elevou acima do barulho estridente da música e das centenas de conversas aleatórias simultâneas. César não se incomodou. Fez um sinal para o barman e este lhe empurrou uma dose faiscante de drinklone, que ele bebeu num só gole. Tomou ainda outra dose da bebida antes de pagar a conta e descer para a praia por uma das muitas escadarias de madeira incrustadas nos taludes rochosos encabeçados por resquícios de mata atlântica.

Naquela madrugada de extrema maré baixa, a pequena praia central estava emersa e vazia. Apenas um bando de gaivotas passeava pelo areal, indiferente.

César foi caminhando na estreita faixa descoberta de areia suja, úmida e fria, passando pelos muros de um hotel em ruínas e pelo o que fora o Garagem Barco Bar e a estátua de São Sebastião, de Agnaldo Simoneti, sobre uma rocha ferrosa, seguindo a curva do molhe de pedras construído, um século atrás, com o intuito de impedir o avanço do mar sobre o continente.

As colunas de sustentação do píer, acima do molhe, estavam cobertas por uma substância escura, betuminosa, e a quilha de um navio destroçado estava presa às pedras, juntamente com latas estragadas de sopa de batata e algumas armadilhas para apanhar lagosta. A arrebentação ali era mais forte: a cada onda, um estouro.

A lota também estava vazia e as luzes amareladas dos postes conferiam ao cenário uma aura indefinida, como num sonho. Os pequenos barcos de pesca e as traineiras repousavam silenciosos no pedaço poluído de mar aprisionado entre o molhe e a faixa de areia. No centro, Samutiri, o senhor do mar, aguardava os seus tripulantes para mais um dia de trabalho.

César esperou ali, junto à porta branca com o nome da traineira gravado em letras negras, ouvindo a sibilância bidirecional dos hidrofólios semi-submersos instalados no quebra-mar. O ar fluía através dos seus respiradouros, ora comprimido, ora descomprimido, produzindo trezentos quilowatts de energia à medida que o estouro das ondas fazia o nível da água subir e descer nos seus interiores.

Um a um os demais tripulantes foram chegando e, num intervalo de meia hora, todos estavam presentes, num total de dez. De poucas palavras, cada homem começou, com movimentos rápidos e mecânicos, treinados pela rotina, a preparar a partida. César verificou os motores e as luzes. Os outros organizaram os aprestos e as redes, levantaram a âncora e enrolaram os cabos.

Depois de tudo pronto, desapareceram nas entranhas do barco, deitando-se no porão, nas camas que os acolheriam até a faina em mar-aberto, com o som ininterrupto do velho motor a combustão, que podia ser ouvido em qualquer ponto da embarcação, martelando em suas cabeças.


FIM

domingo, 18 de março de 2012

Finnegan

Disponibilizo aqui mais um capítulo do livro O Terceiro Homem ainda em processo de escrita. Inicialmente, o enredo do livro teria apenas um núcleo narrativo no qual Finnegan seria a personagem principal. Com o passar do tempo e a cada capítulo escrito, outras personagens foram ganhando força e por isso o autor resolveu dividir o enredo em quatro núcleos: Finnegan, o Mnemante, o Agente e Sofia Lamborn. Este capítulo (assim como o capítulo postado anteriormente: O Mnemante) é o primeiro do seu respectivo núcleo.


Por favor, leiam e comentem:


***

FINNEGAN


Mesmo para um engenheiro de sistemas beta-menos, trabalhar para uma companhia indiana de coleta de lixo espacial era um túmulo no qual Finnegan podia enterrar todos os seus anos de estudo na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Ganharia alguns trocados e mais tarde sairia desta vida tão pobre quanto estava quando havia entrado nela.

Filho da classe média, de pai burocrata, tinha tudo para ser um aluno com excelente rendimento e um engenheiro reconhecido como alfa-mais pela Alta Coordenação.

Mas a vida lhe pregara uma de suas peças e ele acabou seguindo por um caminho muito diferente daquele que o destino costuma traçar para um jovem média ingresso num curso de engenharia.

Quando o pai de Finnegan ficara doente do coração, ele quase teve que deixar a universidade, pois grande parte dos recursos financeiros da família fora usada para pagar as muitas despesas médicas. Um coração clonado custava caro e para equilibrar o orçamento doméstico, manter o orgulho da classe e a possibilidade de ascensão do filho, sua mãe tivera que se desfazer de uma quantidade substancial do acanhado patrimônio familiar.

Os recursos financeiros escassearam e o pai de Finnegan fora obrigado a trocar o hospital por um substituto mais barato: uma clínica chinesa clandestina no Bairro da Liberdade. O tipo de lugar onde não se precisava marcar hora para cirurgia. Era só entrar, e eles já abriam o peito do paciente e tacavam-lhe o coração de um doador involuntário de algum lugar da Ásia Meridional. E depois de dois dias internado em regime de isolamento numa bolha de plástico alugada, despachavam-no para casa, onde continuaria o tratamento com medicamentos imunossupressores.

Quando o pai de Finnegan morreu, deixando a família na bancarrota, sua mãe fora acometida por uma mudança repentina. Parecia ter perdido a fibra e, durante horas a fio, ficava sentada no sofá com os olhos fora de foco, caída no marasmo natural de quem se conecta à Netcy e se enterra aos poucos em uma dúzia de novelas e outras enrolações sintéticas. Algumas vezes, quando saia do seu estado de torpor, ou tentava suicídio ou ficava a conversar com o fantasma do marido.

O jovem Finnegan, que na metade da sua graduação não estava nem um pouco equipado para ganhar dinheiro ou lidar com a situação, tivera que encarar o duro mercado de trabalho que não oferecia muitas oportunidades para um rapaz ainda sem diploma superior. Por acaso, conseguira um trabalho de meio período como folksonomista freelance para a Lexer Brasil.

O negócio era aparentemente simples. Finnegan tinha que obter e classificar informações de uma nuvem de dados da Wired. Em seguida, ele fazia o upload dessas informações para o banco de dados da Lexer Brasil. Daí, se as informações fossem úteis e utilizáveis, Finnegan recebia o pagamento.

A Wired não era um domínio seguro e conhecido como a Netcy. Em outras palavras, a Netcy estava para a Wired como a Terra está para a infinitude do universo. E se na vastidão do universo há o perigo de aniquilação por ejeções de massa coronal, radiação cósmica e partículas carregadas, na Wired você podia acabar dando de cara com as paredes de fogo de algum sistema corporativo ou com as estranhas emanações chamadas de Espíritos da Rede.

Com os poucos créditos que recebera como pagamento, Finnegan financiou o restante dos estudos e colocou a sua mãe em um asilo virtual.

Os asilos virtuais eram galpões enormes, repletos de tanques de suporte de vida feitos de acrílico – do tamanho de caixões funerários – empilhados verticalmente e distribuídos em grandes fileiras horizontais, alugados a um preço módico por quem não tinha dinheiro para pagar os caríssimos e avançados tratamentos de reiniciação do DNA e de psico-reprogramação. Os pacientes, ligados a um sistema de canais interconectados, tinham contato entre si numa espécie de cidade virtual, apartamentados porém por programas de proteção e manutenção psicologica chamados de barreira do ego e eu-como-deveria-ter-sido-como-eu.

Sedada por barbitúricos e mergulhada em fluido amniótico, a mãe de Finnegan era monitorada vinte e quatro horas por dia e recebia nutrientes e psicoterapia por vias intravenosas e intraneuronais. Vivia num simulacro, mas ela adorava aquilo lá. Passeava o dia inteiro com o constructo do marido e, de vez em quando, recebia a visita do filho que, de qualquer parte do planeta, poderia ter acesso ao sítio do asilo na Netcy e, com a autorização do gerontologista responsável, ao simulacro habitado pela mãe.

Finnegan poderia ter conservado seu dinheiro, ter pago por um certificado de alfa-mais no mercado negro das Altas Coordenações e ter ido estagiar numa zaibatsu japonesa, trabalhando entre gente adulta de verdade de uma classe social superior, mas sua mãe estaria morando na rua.

A atitude da classe média ante o declínio de sua família, mesmo entre outros beta-menos, era de um certo desprezo. Era a queda. Finnegan procurou se conformar e ver o bem-estar da mãe como sua fortuna pessoal. E após a sua graduação como engenheiro beta-menos e de todas as recusas profissionais que havia recebido, ele não perdeu tempo e agarrou a primeira oportunidade de emprego que lhe apareceu.



Dois anos na Índia e a vida lhe dera uma nova rasteira. Perdera todas as suas economias após Chennai, a quarta maior cidade indiana, ter sido parcialmente devastada por uma série de tsunamis que arrasou a costa da maioria dos países banhados pelo Oceano Índico. Se ele não tivesse convertido a totalidade do seu chip de crédito em um maço gordo de rúpias escondido no colchão... Mas no submundo indiano, assim como no circuito fechado dos mercados negros globais, o que continuava mesmo a valer era o dinheiro vivo, o velho papel-moeda.

Para a sorte de Finnegan, quando tudo ocorreu, ele estava no Espaçoporto Satish Dhawan, em Sriharikota, a noventa quilômetros ao norte de Marina Beach, protegido das ondas de até trinta metros de altura pela barreira de cilindros ressonantes de Fudan. Estava de partida para uma escala de quatro meses no espaço, na Estação Espacial Internacional.

Um ano após o catastrófico maremoto, Chennai ainda recuperava o seu brilho efervescente e Finnegan, com muito esforço, novamente conseguira economizar algum dinheiro. Para poupar créditos, passara até a dormir nos esquifes mais baratos, naqueles dos chawls perto do porto, de onde se podia ver a linha de progradação de Marina Beach, ao sul do rio Kuvam com os seus bancos errantes de espuma plástica, como um enorme palco iluminado à noite pelos refletores da Santhome High Road.

Finnegan estava com vinte e seis anos e desde os vinte e três trabalhava para a Empresa Aeroespacial Indiana. Três anos era tempo mais do que suficiente para se receber uma promoção, Finnegan pensou enquanto atravessava o portão de desembarque do espaçoporto, voltando de mais uma escala na EEI. Mas ele nunca fora promovido.

Parado junto à janela panorâmica do saguão, lembrou-se da namora, a jovem Nita de dezessete anos, e da saudade que sentia enquanto estava longe dela; saudade esta que só deixava de ser sentida quando, enfim, a tinha em seus braços. Afora a motivação de cuidar da mãe, pensou Finnegan, Nita era a única pessoa em toda a Índia que parecia tornar suportável a sua permanência ali.

Tentou se comunicar com a namorada, mas ela não atendeu a ligação. Era cedo da manhã, ocorreu-lhe, e Nita que não era dada a madrugar. Com certeza ela ainda estava dormindo.

Olhou através da janela panorâmica e ficou momentaneamente ofuscado pelo clarão de um foguete russo alugado, carregado com equipamentos norte-americanos que iam para Marte. Um borrão avermelhado formou-se em sua visão, desaparecendo alguns minutos após a nave ter se distanciado e se tornado um ponto incandescente no espaço.

Ele não gostou de ser ofuscado, nem mesmo por um instante. No entanto, não tinha créditos suficientes para comprar a mais nova lente de contato da japonesa NEC e, por este motivo, tinha que se contentar com a sua Sensimed sem filtro luminoso.

— Quem diria. Os americanos estão no chão — enquanto se afastava da janela, Finnegan ouviu alguém usar o jargão aeroespacial numa conversa sobre os Estados Unidos estarem dependendo inteiramente dos seus parceiros russos, japoneses e europeus.

Estava amanhecendo e os cinco níveis do espaçoporto estavam lotados de pessoas e cargas. No nível superior, havia cientistas conceituados de vários países, magnatas industriais brasileiros e chineses, príncipes sauditas, uma estrela pop japonesa e um ex-primeiro-ministro inglês. Já nos quatro níveis inferiores, havia militares, alguns técnicos da Empresa Aeroespacial Indiana e de outras empresas e agências estrangeiras, sondas espaciais norte-americanas, satélites turcos, suprimentos para a clínica orbital russa, equipamentos para as bases internacionais de pesquisa na Lua e em Marte.

Os passageiros ilustres do nível superior voariam até a Estação Espacial Comercial, propriedade das empresas russas Orbital Technologies e RSC Energia. Também chamada de hotel espacial, a EEC era voltada para o turismo espacial, servindo como plataforma giratória de vôos. Uma parada curta na EEC, por exemplo, era perfeita para aqueles que podiam pagar por uma viagem ao redor da Lua e desejassem visitar a sua zona de exclusão aérea num vôo tangencial sobre os sítios históricos da era de ouro da exploração espacial. Já a equipe de técnicos nos níveis abaixo voaria para a Estação Espacial Internacional, mais voltada para laboratórios de pesquisa.

Ao sentir o cheiro da comida vindo do restaurante na ala norte do espaçoporto, Finnegan começou a sentir fome. No espaço, ele não sentia muita fome, pois na ausência de gravidade os aromas dos alimentos se dissipam antes mesmo de chegarem ao nariz. E quando não se consegue sentir o cheiro da comida, não se é possível saboreá-la plenamente.

Ele dirigiu-se até o restaurante, onde achou um lugar no balcão. Enquanto consultava o menu, os monitores do saguão noticiaram a manobra de elevação da Estação Espacial Comercial para evitar a colisão com um fragmento de lixo espacial e mais uma seqüência de testes bem-sucedidos no Stratolaunch Systems II e no Super Heavy Lift Rocket, das norte-americanas Virgin Galactic e SpaceX, concorrentes pesos-pesados do Tsien IV, da chinesa Tsung.

Finnegan não prestara atenção na reportagem, pois estava ocupado demais sentindo inveja de um engenheiro australiano da Tolley & McConnell, sentado três lugares a sua esquerda, de terno preto e com um chip de crédito corporativo tatuado nas costas da mão direita. O rapaz não devia ter mais do que a sua idade, Finnegan observou, e já era um empregado de certo nível. Um alfa-mais, certamente.

Finnegan, no entanto, continuava a vestir o seu velho macacão espacial, metido no qual mal podia afastar os braços do corpo no interior da estreita cabina da cápsula extraveicular Kudriavka. Um beta-menos coletor de lixo espacial. Ele começava a sentir-se um idiota.

Com um gesto, o australiano chamou a garçonete e pediu “brekkie” — uma gíria de seu país para café-da-manhã. Ela sorriu-lhe com langor e, cinco minutos depois, serviu-lhe um verdadeiro banquete matinal. Havia frutas tropicais, suco de cenoura com mexericas, café brasileiro, cottage, chapatti com manteiga ghee, idli, dosai, puris, yellow potatoes, gulab jamuns, chatni.

Finnegan, com o pouco que ganhava, pôde gastar apenas dez créditos numa xícara de chai e num chapatti sem acompanhamento.

Depois de comer, foi para casa. Estava exausto e, apesar da saudade, deixaria para ver Nita à noite, quando estivesse com as energias recobradas. Havia deixado-lhe uma mensagem carinhosa na sua caixa de recados, convidando-a para um jantar no Dhaba – um restaurante popular de beira-estrada, três quadras a oeste do porto. Ele sabia que ela estava ansiosa para revê-lo e que, sem falta, compareceria ao encontro. Ficou feliz por poder ter certeza disto.


FIM