
Tinha o seu eyeclops na mão, mas não precisou usá-lo. Conhecia bem o percurso e, por isso, encontrou facilmente o caminho entre poças de água estagnada e emaranhados de cabos de fibra ótica suspensos.
Nunca se via ninguém no prédio, mas algumas vezes era possível ouvi-los; música através de uma porta fechada ou vozes distorcidas e passos apressados logo após a dobra no final de um corredor. Bob preferia assim; também não desejava encontrar seus vizinhos.
Fechou a porta atrás de si e entrou no cômodo estreito, cheirando a mofo, que era a pequena cabina radioprotetora de vidro plumbífero que ele próprio montara. Esperou a medição do obsoleto Polimaster, o aviso indicou níveis aceitáveis. Acendeu uma tira biofluorescente da Leah Buechley colada em uma das quatro paredes de plástico branco e argamassa baritada cobertas de fungo que compunham o loft e jogou a edição daquela manhã do Newssobre o sofá. Na primeira página, havia outros títulos: “3RS desenvolve nova tecnologia sinchip”, “Animais vivos para todos os gostos e bolsos, anuncia a Clonest Biotechnology”, e a grande manchete: “Mnemante ataca novamente”.
Contente por estar em casa, Bob baixou as persianas, tirou as frias roupas de borracha plúmbea com protetor de tireóide e caminhou descalço sobre o chão coberto por mosaicos brancos até o banheiro, onde tomou um demorado banho de vapor quente.
Vestiu um agasalho de tecido sintético semelhante ao algodão, calçou um par de chinelos plásticos que estavam encobertos sob uma pilha enorme de revistas velhas que havia desabado em cascata e apoltronou-se na grande cadeira ordinariamente estofada do console, olhando para o teto de placas corroídas. Retirou um copo plástico grande de coca-cola, um sanduíche morno e uma caixinha de batatas fritas do pacote de papel sobre o seu colo e começou a comer enquanto usava a mão livre para plugar-se ao deck da YDream.
Bob ligou o dispositivo e o teto desapareceu imediatamente, encoberto por uma supernova extremamente brilhante que projetava pontos de luzes variadas pelas paredes e pelo chão. Quando fechou os olhos, a estrela continuou a brilhar intensamente sob o fino véu das suas pálpebras, mas ela logo colapsou, tornando-se uma pulsar tão luminosa quanto uma galáxia. Ele sentia os pontos de luz moverem-se sobre o seu corpo, como as luzes de cidades acima ou abaixo dele. No entanto, ali não havia mais alto ou baixo e então a estrela continuou a colapsar, as luzes girando em uma velocidade que não podia ser medida. Era como se ele estivesse em algum lugar do espaço, numa bolha de vidro entre as estrelas que caiam em sua direção, atraídas para ele como uma chuva de meteoros. Bob havia se tornado uma singularidade no espaço-tempo, um buraco negro do qual as estrelas links não podiam escapar.
Isso tudo não durou mais que dois segundos e Bob já estava acostumado com a sensação vertiginosa do input na alucinação que era a Netcy; uma alucinação consensual, uma constelação infindável de dados, vivida diariamente por bilhões de pessoas – homens e mulheres, adultos e crianças – no mundo inteiro.
Bob enfiou na boca, de uma só vez, o último quarto do sanduíche e tomou um gole farto do refrigerante para não engasgar. Tinha pressa. Escolheu um link que orbitava acima da sua cabeça, acessou a sua conta no My Self e fez uma nova visita ao perfil de Mona Stephenson. Aquela era, talvez, a centésima vez que ele visitava o seu perfil. Ficara fascinado por ela desde a primeira vez que a vira, há duas semanas, na lista das “cem melhores memórias compartilhadas” eleitas pelos usuários da rede social no banco de dados da Memory Lane.
Deitado na poltrona reclinável, de olhos fechados na sala escura, Bob acessou o álbum de memórias que Mona disponibilizara na rede. Escolheu novamente o arquivo “momentos em família” e escorregou para dentro do mundo de Mona.
Um retângulo branco apareceu em sua visão, acinzentou-se e ficou tremido como se o operador de uma câmera a movimentasse. Levou alguns segundos para sincronizar o equilíbrio, pois Bob passara a enxergar através do ponto de vista da garota.

Era primavera sob os geodésicos e um schnauzer miniatura, com orelhas pontudas como as de um pinscher, apareceu brincando entre as pernas da Sra. Stephenson que ria ao mesmo tempo em que tentava entrar na cozinha com as sacolas de compras sem tropeçar no cãozinho. Mona também ria bastante vendo o cachorro mordiscar as pernas da calça da mãe. O YDream simulou a sensação e o receptor sensorial do sistema nervoso central de Bob processou o estímulo na forma de uma emoção crescente; era a alegria de Mona materializando-se dentro dele, o corpo todo dela tremendo, o peito balançando de tanto rir.
Mona olhou para a mãe que retribuiu o olhar com um sorriso amável. Bob imobilizou a imagem e deu umclose na Sra. Stephenson. Em seguida, apertou o controle e o filme recomeçou.
Houve um golpe de excitação. A Sra. Stephenson era uma mulher jovem e atraente. O seu corpo esguio metido em calças jeans justas e em uma camisa branca com lapela levantada, o peito alteando-se no decote quando ria e a pele branca contrastando com o cabelo escuro agitado pelo vento fez com que uma ereção se avolumasse sob as calças do agasalho de Bob. Mas o sacrílego abrasamento antinatural logo chocou-se em perpétuo conflito com a enormidade do respeito de Mona pela mãe e ele estremeceu, sentindo uma pitada de remorso. Suas mãos apertaram os braços da poltrona, os dedos meteram-se no enchimento e o close se desfez.
— Huan, seu malvado! Você vai apanhar! —, gritava Mona. — Huan! —, e Bob viu-se correndo atrás do cachorro, sem conseguir alcançá-lo, pois os pezinhos minúsculos da menina não podiam de jeito nenhum competir com as patas ágeis do cãozinho que pinoteava e desviava o corpo, forçando Mona a dar voltas à toa com os bracinhos roliços estendidos, golpeando o ar.
— Huan — estrilava Mona com o máximo de voz que lhe permitiam os sete anos de idade —, fica quieto! — e se sacudia toda, quase sem fôlego, de tanto que ria.
Quando Mona finalmente conseguiu agarrar o cachorro, Bob sentiu os oito quilos do animal pesarem em seus braços. Sentiu também a maciez de sua pelagem prateada de tosa curta e uniforme, ressaltando a densa barba e as grossas sobrancelhas.
De repente, um corte para uma tomada mal iluminada. A imagem estremeceu, desfocou e ficou nítida subitamente. Bob estava em uma festa de aniversário batendo palmas de forma ritmada. As pessoas cantavam parabéns. Willy Stephenson, de onze anos, irmão de Mona, estava sentado do outro lado da mesa, com o bolo à sua frente. As chamas bruxuleantes refletiam-se em seus óculos, até que ele soprou as velas e tudo escureceu. O Sr. Stephenson apareceu atrás dele, acendendo as luzes. A Sra. Stephenson surgiu ao seu lado, tão bela quanto em sua primeira aparição, segurando uma caixa grande com laço.
Mona olhou em volta, revelando uma dúzia de meninos e meninas da escola de Willy e alguns parentes e amigos da família.
Willy abriu o presente e em seguida cortou o bolo com o auxílio da mãe, oferecendo-lhe o primeiro pedaço.
Agora Mona também comia uma fatia e Bob sentiu o sabor doce do chocolate confundir-se na boca com o salgado, das fritas. O bolo estava delicioso; uma saborosa distorção, a mais doce confabulação de uma experiência imaginada gerando um simulacro de bem-estar e felicidade. Ele nunca assimilara uma informação igual, tão próxima do que se poderia chamar de realidade; uma memória tão docemente falsa implantada em sua mente, processada no hipocampo, armazenada pelo lobo frontal, manifestando-se como uma lembrança pueril remontada a partir das memórias e impressões sensoriais dispersas no cérebro de Mona.
Novamente um close na Sra. Stephenson. Ela ria e mexia o cabelo. E agora Bob também ria, um riso puro e infantil, e mexia o cabelo com o bracinho roliço de Mona, imitando a elegância dos movimentos da mãe. Ele sentia-se imbuído de admiração. Quanta felicidade, quanto amor havia naquelas memórias. Eram maravilhosas. Gostaria que as suas próprias fossem assim.
Lembrou-se das belas recordações de Debbie Dainard e Lily Owens, dos seus momentos em família. Lamentou o resultado que dera às suas últimas lembranças, sem nenhuma sensação de paz ou clímax.
Bem. Precisava superar isso. E com Mona seria diferente. Havia adquirido experiência e não cometeria os mesmos erros."
FIM